Mais que uma escola


por 

Ivan Rubens Dário Jr - Escola de Ativismo

Madalena Santana de Sales - professora



Neste texto faremos um exercício de pensar que uma escola pode ser muito mais do que uma escola. Um primeiro olhar para as escolas nos remetem a entrada com uma placa indicativa com o nome da escola, algumas grades e portões, paredes, portas, tijolos, telhado, uma escola em sua dimensão física. Logo percebemos que tem gente, as matrículas, professores, disciplinas. Tem gente que vê indicadores como o ideb e outros índices que tentam medir o aprendizado. Tem gente que vê ensino e aprendizagem, na distorção idade-série, nas aprovações e nas reprovações, nos planejamentos, nas assessorias pedagógicas desses institutos que “amam” a educação pública, os direitos trabalhistas, os corporativismos, tem gente que vê as políticas de acesso e permanência na escola, as bolsas e os pés de meia e tem gente que consegue ver os pés mesmo, com leia e sem meia, com chinelo de dedo e sem chinelo nenhum.


Neste exercício que estamos te convidado para fazer conosco, neste esforço de pensar para além disso tudo, pensar que uma escola pode ser mais que uma escola, vamos apontar nosso olhar e colocar nossa atenção em uma escola em particular: a Escola Estadual Quilombola José Mariano Bento situada no Território Quilombola do Vão Grande no Mato Grosso.



O Território e a Escola


O território quilombola do Vão Grande está situado no vale do rio Jauquara, afluente do rio Paraguai. Em sua margem esquerda está o município de Porto Estrela, e neste estão a comunidade do Retiro e a comunidade de Vaca Morta. Durante muito tempo a passagem de uma margem para outra se dava por dentro da água mesmo nos trechos onde era mais rasinho. E no período das chuvas, quando o Jauquara estava mais cheio, os carros não passavam. Só passava na canoa. No território quilombola do Vão Grande se produz muita mandioca, macaxeira, muita banana, legumes como jerimum, frutas, e toda essa produção passava nas canoas até a outra margem para acessar os mercados e os consumidores. A mesma coisa acontece com os produtos e mercadorias que vinham das cidades, sobretudo o gás de cozinha e outros combustíveis oriundos do distrito de Currupira, do posto Currupira e das cidades mais próximas. Mais próximo aqui significa no mínimo 1 hora dentro de um carro na estrada de chão até acessar a rodovia MT-246 vencendo os cerca de 30 km em linha reta que, no traçado da estrada cruzando riachos e acidentes geográficos somam cerca de 45 km. Do outro Lado, na margem direita do rio Jauquara estão a comunidade do Baixius, a comunidade do Morro Redondo e a comunidade da Camarinha, estas no município de Barra do Bugres. Tanto Porto Estrela quanto Barra do Bugres compõem o estado do Mato Grosso. Estamos falando do alto curso do rio Paraguai, ou seja, mas para a região onde estão as nascentes do rio Paraguai e somam com as águas que abastecem o Pantanal.


A Escola Estadual Quilombola José Mariano Bento é, certamente, o único equipamento público permanentemente aberto e em funcionamento naquele território. A Escola é a presença do poder público, a Escola Quilombola é a presença do Estado brasileiro ali. A Escola Quilombola funciona como centro aglutinador de muita coisa, inclusive das cinco comunidades que compõem o território quilombola do Vão Grande.



Uma história da educação


Para falar um pouquinho da educação ali no território Quilombola do Vão Grande, contamos com a colaboração da professora Madalena Santana de Sales. Madá é professora de matemática e muito querida das cinco comunidades. Madá conhece a luta dos Comitês Populares de Defesa das Águas e do Clima, conheceu a luta pela defesa do Pantanal Vivo, participa das atividades organizadas pela Escola de Militância Pantaneira, é parceira da Escola de Ativismo e, por reconhecer a luta e valorizar todo esse movimento popular, no tempo que esteve à frente da Coordenação Pedagógica da Escola Quilombola ela estimulou a escola a participar desse esforço. Não foi, Madalena? Então conta pra gente um pouco da história da educação escolar no Território Quilombola Vão Grande.


Madalena Santana de Sales


A história da educação escolar no território Quilombola do Vão Grande tem seu início com as aulas ministradas nas casas, alguns alunos caminhavam mais de 10 km entre as morrarias. O professor era um membro da comunidade que dominava a leitura, a escrita e alguns cálculos básicos. 

O Sr. Benedito Osvaldo, morador da comunidade Baixius, nascido no final da década de 1940, foi um dos professores. Ele estudou até a 3ª série, apenas alguns meses por ano, aprendeu a ler, escrever e fazer cálculos. Ele ministrava aulas de manhã para os alunos da Comunidade Baixius, Morro Redondo e Camarinha que pertenciam ao município de Alto Paraguai/MT, à tarde para os alunos da Comunidade Vaca Morta e Retiro que se localiza do outro lado do Rio Jauquara e pertenciam ao município de Barra do Bugres/MT. No período chuvoso, ele precisava atravessar o rio com os alunos na canoa, para diminuir o número de travessias, pois a capacidade de canoa não era suficiente para todos, ele colocava os alunos e puxava a canoa por uma corda. 


“Eu atravessava o rio com seis alunos na canoa, eu colocava as crianças e puxava, para atravessar mais ligeiro,  porque  se  eu  entrasse  na  canoa  tinha  que  fazer  o percurso  mais  vezes,  tinha  que dar três, quatro viagem”, disse o Dito Osvaldo para a Madalena em junho de 2019. Ele ficava vários meses sem pagamento, precisava ir até Alto Paraguai para receber seu pagamento.

Certa vez, quando voltava do município de Alto Paraguai cujo percurso (cerca de 45 km) da MT-246 até o Território Quilombola… 


“Eu fui, porque nesse tempo a gente tinha que ir até com rede pra dormir, porque não tinha onde dormir, daí eu levei uma bolsa com roupa e a rede e de lá pra cá eu fiz compra de mantimentos e, ainda trouxe livro, caderno, lápis, caneta e borracha, uma caixa que dava mais ou menos 7 kg ou 8 kg. O saco com os mantimentos pra cá, a bolsa aqui e a caixa na cabeça, saí de lá oito horas da manhã e cheguei oito horas da noite [...], noutro dia acordei com a cabeça inchada de carregar a caixa, não tinha costume de carregar nada na cabeça, vim a  pé do estrada onde o ônibus parou até aqui” (Dito Osvaldo, junho de 2019). 



A primeira escola construída foi na Comunidade  Retiro. Sr Maximiano disse que o Sr. Leopoldino com a ajuda do  prefeito de Barra do Bugres da  época construiu a escola  e levou  uma professora para ministrar  aulas. Ela não  morava na comunidade, precisava subir e descer a serra para chegar à escola e, diante da dificuldade, abandonou as  aulas. 


“Quando eu era criança, minhas irmãs foram à escola, o Leopoldino buscou professora, conversou com o prefeito  na Barra,  ele trouxe  material e fez a escola, então veio uma professora chamada Arcelina, mas nessa época eu não estudava, eu era  bem pequeno,  tinha que  atravessar o  Jauquara, as  minhas irmãs  mais velhas, todas as pessoas mais velhas de certa idade aprenderam a assinar o nome, com essa professora, com o passar do tempo, comecei a ir para a escola, mas logo a professora foi  embora  e  não  voltou  mais” (Sr. Maximiano, morador da comunidade Baixius, disse para a Madá em Abril de 2019). 



Na comunidade Vaca Morta, há uma escola, que leva o nome do Sr. Leopoldino. A escolinha foi desativada com a inauguração da escola José Mariano Bento em 2018.


O Sr. José Ambrósio também estudou na escola criada pelo Sr. Leopoldino.

“Pra ir à aula, eu atravessava a mata do Jauquara, lá na passagem do retiro. Eles me levavam lá, mas só quando era tempo de seca, no tempo da água não podia ir, pois Jauquara  ficava  cheio demais,  eu  não  aprendi  nada,  só  um  pouquinho. O professor era  o  finado  Leopoldino, era  barbudo e tinha  um filho chamado  Godofredo.  Pegava  ele  pela  orelha  e  passava  perto  de  nós  com  ele pendurado, meu Deus do céu, ficávamos com muito medo. O professor tinha uma palmatória furada, qualquer coisa que a gente fazia ele vinha de lá, ah, medo triste. Com o passar  do tempo parei de ir à  escola, mas nesse tempo todas as coisas eram tranquilas, eu não aprendi nada mesmo, mas era desse jeito, nesse tempo que nós vivíamos (Sr. José Ambrósio morador da Comunidade Morro Redondo. Abril de 2019).  


O senhor Maximiano se lembra que “o prefeito de Alto Paraguai começou a criar umas  escolas nas casas, na residência do Antônio e do compadre Manoel funcionou a ‘escola’ do Baixius”.    


A prefeitura de Alto Paraguai construiu as escolas de madeira nas comunidades Morro Redondo, Camarinha, Baixius as comunidades Vaca Morta e Retiro pertencentes a Barra do Bugres compartilhavam a mesma escola. Em algumas comunidades, a escola era também a moradia das professoras e professores que ministravam aulas, preparavam o lanche e limpavam a escola. Era preciso buscar água no rio Jauquara e levar louças e roupas para lavar lá no rio também. Tais escolas atendiam somente até a 4ª série, que atualmente chamamos 5o ano. Após o término dessa etapa escolar, quem tinha parente na cidade mandava os filhos pra lá onde havia escola para continuar os estudos e, para quem não tinha parente na cidade só restava a opção do abandono escolar. Isso perdurou até 2002, quando as professoras Dinalva, Lucimara e Maria Helena que já atuavam nas escolas, uma em cada Comunidade, juntamente com os moradores conseguiram a abertura de salas anexas de escolas municipais. Então já era possível terminar o ensino fundamental, porém mais uma vez alguns  alunos  e  pais  sonhavam com o ensino médio.  

Novamente  entram em cena a Comunidade e as professoras (também moradoras na comunidade) para trazer o ensino médio, e assim as salas anexas são da Escola Estadual Sabino Ferreira Maia, a escola rural São José do Baixio, salas anexas da escola municipal Guiomar de Campos Miranda, atendendo os alunos do 6º ao 9º ano e o ensino médio da escola Sabino Ferreira Maia. Ou seja, três escolas diferentes funcionando num mesmo espaço físico.


Desde 2009 eu (Madalena Santana de Sales) comecei a fazer parte dessa realidade. Fui contratada como professora de matemática para ministrar aulas no ensino médio nas salas anexas da Escola Sabino Ferreira Maia. A escola possuía duas salas de aula, uma secretaria, dois banheiros e uma cozinha, para cerca de 200 alunos e alunas. O povo do Vão Grande construiu barracões cobertos de palha de babaçu para abrigar salas de aula. Em 2010, após muitas reivindicações e luta da comunidade, a SEDUC/MT criou em fevereiro de 2010 a Escola Estadual José Mariano Bento. As obras começaram em 2011 previstas para 12 meses mas se arrastaram por 4 anos. Muitos foram os problemas com a construção, a obra foi paralisada, diziam que a empreiteira vencedora da licitação entrou em falência. As aulas continuavam acontecendo nos barracões de palha babaçu…


Em 2014, as aulas foram interrompidas porque a palha de babaçu não aguentou o excesso de chuva.  A solução mostra o espírito de luta: 


A comunidade, a equipe escolar, professores, alunos e alunas OCUPARAM o prédio ainda em construção.


A cozinha e os banheiros funcionavam na antiga escola de madeira. Para comer e usar os sanitários, uma caminhada de 200 metros. Nova licitação para conclusão das obras mas escândalos envolvendo a SEDUC/MT e a empreiteira vencedora desta nova licitação e responsável pelas obras de finalização paralisou as obras pela segunda vez. O prédio onde hoje funciona a Escola Estadual Quilombola José Mariano Bento foi concluído apenas em 2017.




Uma educação quilombola


As discussões sobre educação quilombola, para professores e professoras da cidade e mesmo da comunidade, eram novidade. As formações promovidas pelo CEFAPRO iniciaram. Devido às especificidades da educação escolar quilombola, as Ciências e Saberes Quilombolas compostas por três disciplinas: prática em tecnologia social, prática em cultura e artesanato quilombola e prática em técnicas agrícolas quilombola e as demais disciplinas também têm que trabalhar de acordo a realidade local considerando suas vivências, seus saberes e fazeres. O que fazer? Como fazer?


De posse da matriz curricular, com as novas disciplinas fornecidas pela Superintendência de Diversidade, iniciamos os trabalhos. A SEDUC/MT e o Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Relações Raciais e Educação da UFMT ofereceram formação e aperfeiçoamento para as escolas quilombolas de Mato Grosso. Além dos cursos de formação, os  professores da Escola Quilombola José Mariano Bento participam desde 2010 do Seminário de Educação promovido pela UFMT e da Jornada Desigualdades Racial na Educação Brasileira,  apresentando  relatos  de experiências em educação escolar quilombola. Ainda  em 2016,  foi aprovado o PROINQ  –  Programa  de  inclusão  de  estudantes quilombola, com primeiro vestibular para 2017. O programa garante 100 vagas por ano e o acesso de alunos quilombolas em todos os cursos ofertados pela  UFMT, com vestibular específico e as provas  aplicadas nas Comunidades Quilombolas. A aprovação do programa se deu  após  muitas  lutas  da comunidade acadêmica, dos quilombolas e de instituições parceiras, uma ação afirmativa de reparação  a tantos  anos  de desigualdades educacionais  vivenciados pelos  quilombolas.  

Aos  alunos  aprovados  e  matriculados  é disponibilizada  bolsa  permanência  que os auxiliará nos gastos com moradia, alimentação e deslocamento, e também apoio emocional feito por psicólogos para ajudá-los nesse momento de adaptação à nova realidade longe do convívio familiar. Em 2018, o vestibular foi suspenso devido a restrições orçamentárias e consequentemente diminuição no número das bolsas permanência.

Em 2017, o Conselho Estadual realizou audiências públicas nas comunidades quilombolas com o título: A escola que temos e a escola que queremos. Com o objetivo de ouvir os anseios e as reivindicações dos moradores sobre as escolas dos quilombos. Nessa ocasião, as discussões foram as condições de acesso à escola e o término da obra.   Em 2019,  solicitou-se que se fizesse  o levantamento da quantidade  de quilombolas para ingressar na universidade pelo PROINQ e também o número de alunos que prestaram o ENEM, depois de cumpridas as exigências, estaria programado o lançamento do edital para o segundo semestre desse mesmo ano, porém isso não aconteceu. Se por um lado a educação escolar quilombola avançou nos últimos tempos, por outro os desafios ainda são grandes. A precariedade das estradas e o transporte escolar insuficiente, que não supre suas necessidades, são alguns aspectos que fragilizam a educação escolar no Território Quilombola Vão Grande. Devido à distância entre  as cinco  comunidades e somente um ônibus para fazer o transporte dos  alunos até a  escola, eles permanecem  cerca de três  horas dentro do ônibus, empoeirados e submetidos à temperatura elevada. Ao poder público compete oferecer condições dignas para que os alunos cheguem até a escola, desconsiderando todas as situações já relatadas pela comunidade escolar e moradores. A manutenção das estradas só é feita após muitas reivindicações da comunidade, sendo uma das principais ações para minimizar o sofrimento dos alunos. 



A Escola Estadual Quilombola José Mariano Bento hoje


Pois bem, no Território Quilombola do Vão Grande está a Escola Estadual Quilombola José Mariano Bento com, segundo o censo escolar (INEP) e dados finalizados em 2023:


fundamental anos iniciais

12

fundamental anos finais

26

ensino médio

14

Educação de Jovens e Adultos

25

educação especial 

02

total

52


professores/as

12

trabalhadores/as 

07


A escola é nova, suas dependências são boas, amplas e bem cuidadas. Possui acessibilidade nas dependências de um modo geral incluindo os sanitários, a água é filtrada e geladinha, as refeições são preparadas com muito carinho na própria escola. Biblioteca, sala de leitura, uma quadra poliesportiva ampla e coberta com arquibancada, que recebe atividades esportivas, sobretudo o futebol, que agrada meninos e meninas, jovens e adultos. A diretora tem uma sala para fazer o seu trabalho, tem sala para professores e professoras, tem internet quando a energia elétrica chega até ali (o funcionamento é irregular, cai com certa frequência). A escola possui equipamentos como TV, projetores, copiadoras, computadores, impressoras e etc. Estamos falando de um bom equipamento público em termos de estrutura e equipamentos.

Lembramos como se fosse hoje da festa junina que acontecia na escola em julho de 2019, escola lotada, a comunidade participando em peso da festa e, aproveitando a oportunidade, um abaixo assinado com algumas centenas de pessoas dizendo: PCH, AQUI NÃO!!! O abaixo assinado foi decisivo para o poder judiciário proibir a construção de uma pequena central hidrelétrica ali no Sarto do Jauquara. 


As dificuldades também foram atualizadas. Diferente do que vimos acima nas falas do Dito Oswaldo, do Maximiano e do Zé Ambrósio, a comunidade e a escola lutam para melhorar o transporte escolar, instalar um laboratório de informática. Durante muito tempo o acesso à internet tem pacote de dados pago pelos professores. A biblioteca não possui acervo para pesquisas, ela é composta em sua maioria por livros didáticos, questões que fragilizam as pesquisas em livros e, pior do que isso, não permitem a criação de um gosto pela leitura. Sem biblioteca não há escola. Há? Claro que há escola sem biblioteca. De que escola estamos falando? 




Quem foi José Mariano Bento?



Bem, vimos neste texto um pouco do território quilombola do Vão Grande e a história da educação escolar naquele território. Para tanto contamos com alguns depoimentos dos mais antigos e contamos com a colaboração da professora Madalena. A Escola Estadual Quilombola leva o nome de uma pessoa em tom de homenagem. Então, quem foi José Mariano Bento?


Para responder essa questão, contamos com a ajuda de Antônio de Souza Bento, o tio Antônio, filho do homenageado.


Tio Antônio diz que o pai, José Mariano Bento foi um homem inteligente. O convívio de ambos durou 39 anos. Generoso, não relutava em passar bons conselhos aos filhos. “Meu pai era muito conselhoso, muito generoso e muito sábio, ele não queria as coisas apenas para ele. Reza, palavras das bíblia sagrada onde estão as palavras de Deus”.


José Mariano Bento ficou doente de quase morte logo ao nascer. Mãe Fina prometeu que faria a festa para São José sempre na passagem de 18 para 19 de março com reza de ladainha, dança de São Gonçalo e canto de Cururu, tudo em louvor a São José. São José é o padroeiro da comunidade São José do Baixius. O garoto se levantou, o santo ouviu o pedido e a festa em devoção a São José iniciada pela mãe Fina acontece até hoje, promessa que tio Antônio carrega por toda sua vida. De mãe Fina para o abençoado José Mariano Bento, e deste para o filho Antônio de Souza Bento.


“Meu pai morreu mas deixou em nossas mãos a continuação da festa. Somos 13 filhos naturais e mais um adotado. Enquanto os filhos estiverem vivos não esqueceremos dos bons conselhos e da devoção que papai nos passou”, disse o tio Antônio. Ele procura fazer o bem porque aprendeu isso com o pai. Em consequência, tio Antônio entende que as amizades, as boas pessoas que aparecem na vida dele são virtudes que vieram dos ensinamentos do pai.


“Quem honra o pai e a mãe será honrado em vida também, são sabedorias divinas que chegaram aos filhos pelas palavras ditas por José Mariano Bento. Meu pai é um homem inesquecível porque foi bom aqui na terra. Ele foi uma das pessoas que levantou essa comunidade, ele é raiz daqui.”


Tio Antônio entende que a comunidade quilombola do Vão Grande enfrenta e enfrentou muitas batalhas. São um povo de luta que se espelha nos mais velhos como José Mariano Bento. Segundo tio Antônio o pai era um homem muito generoso, criou filhos, netos e tataranetos enfrentando toda dificuldade, ele nunca teve ambições de acumular. Pelo contrário, trabalhou para construir o reino de Deus aqui na terra. Reino de Deus aqui na terra é “onde não falta o pão na mesa de ninguém”.


José Mariano não tinha nenhum estudo mas batalhou muito para que os filhos aprendessem a ler e a escrever. “Na minha casa feita ainda de pau a pique e barreado, veio um professor da Barra do Bugres e dava aulas para as crianças em casa mesmo”. Queria os filhos “bem estudado e bem assentado”. Em 2007 as aulas passaram da minha casinha para a casa do meu irmão que tinha os cômodos um pouco maiores. Em regime de mutirão, a comunidade fez um barracão para acomodar a primeira escola. Desde as primeiras conversas sobre uma escola pública funcionando no território do Vão Grande, já aparecia a possibilidade de homenagear este pioneiro. “Meu pai sonhou com essa escola durante a vida toda. E nós lutamos muito pela escola até hoje.”


“Uma escola estadual com o nome de papai é que recebeu a criançada das cinco comunidades aqui do território quilombola para estudar”, disse o tio Antônio. E isso não é pouca coisa. Isso tem um significado simbólico, isso vincula ainda mais escola e comunidade, comunidade e escola. Numa perspectiva outra, a denominação da escola é resultado de uma história construída a muitas mãos, mãos calejadas do trabalho na terra, mãos molhadas das águas do Jauquara e do sangue de quem tombou lutando por esse território. E isso é muita coisa, isso é muita vida vivida neste chão. A Escola Estadual Quilombola José Mariano Bento meio que materializa tudo isso, ou seja, dá forma para a história de lutas. São lutas populares que dão forma a uma escola, e é uma escola resultante dessa luta popular.


Essa escola está na comunidade e suas raízes são profundas. Segundo o tio Antônio, um dia o secretário ou um assessor do prefeito marcou uma reunião e chamou a comunidade pra decidir o nome da escola nova. “Aqui teve um homem que foi professor a muitos tempos, o Elpídio deu aula na escola José Leopoldino”. Então tio Antônio disse: “Antes de ter estrada a gente circulava de a pé, a cavalo pelas picadas e, desde esse tempo José Mariano Bento já lutava por nossa comunidade”. Este nome funciona como uma espécie de homenagem aos ancestrais. Uma escola, Escola Quilombola José Mariano Bento.


“E nós não vamos deixar desdobrar essa escola que leva esse nome em homenagem a nossos ancestrais quilombolas”. Esse nome simbólico funciona como raízes profundas que vinculam a escola ao território, nas profundezas do território, lá onde está o lençol freático que, no período das secas, abastecem as plantas e seus frutos. 




Mais uma ameaça para as comunidades quilombolas


No dia 14 de outubro de 2024, a DRE - Diretoria Regional de Ensino - Pólo Tangará da Serra e a secretária de educação do município de Barra do Bugres, estiveram na escola para comunicar a municipalização da Escola Quilombola José Mariano Bento. O município seria o responsável pelo Ensino Fundamental Anos Iniciais e administração escolar, enquanto Ensino Fundamental Anos Finais e o Ensino Médio como sala anexa de uma escola urbana. A Fala do Diretor da DRE foi apenas COMUNICAR, pois já estaria tudo resolvido entre a SEDUC/MT e a Secretaria de Educação de Barra do Bugres, desconsiderando todas as pessoas envolvidas na Educação Escolar nesse espaço, profissionais da educação, estudantes, pais e moradores que tanto lutaram para uma escola com a estrutura atual no Território Quilombola Vão Grande.


A gestão da escola não foi informada sobre a reunião, surpreenderam todos os que estavam presentes nesse momento, alegaram que não o fizeram para que a escola e comunidade não se organizassem para recepcioná-los, como aconteceu no início do ano letivo, quando a DRE veio até a escola para empossar um diretor efetivo, e a comunidade disse NÃO, nós queremos uma profissional que conheça a nossa luta, por uma educação que valorize o conhecimento, a vivência, a ancestralidade, os saberes e os fazeres do nosso povo. Desde então, percebemos que algumas ações foram dificultadas para a escola, chegamos a pensar que isso poderia ser uma represália ao ocorrido no início do ano letivo. Justificaram também que o fechamento da escola se deve ao baixo número de estudantes, no entanto, esse fato é uma realidade das escolas quilombolas, indígenas e do campo, é preciso um olhar diferenciado para essas especificidades. É preciso educar também o olhar para as comunidades e os territórios onde uma escola está situada. Há escolas e escolas. Há escolas urbanas e escolas não urbanas, há escolas de cidade e há escolas que não estão nas cidades assim como há gente que mora nas cidades, a imensa maioria da população mora nas cidades mas não toda. Tem gente que prefere morar no campo, nas matas, nas florestas, nas aldeias, nas beiras de rio, em remanescentes de quilombo e toda gente tem direito a educação. Mas qual educação? qual escola? há que se reinventar a escola e isso não será feito nos gabinetes palacianos. A reinvenção da escola acontecerá nos territórios.


O redimensionamento é uma realidade no estado do Mato Grosso, várias escolas fechadas ou municipalizadas, um plano de educação que fecha escolas ao invés de construir escolas.

Na fala tanto do diretor da DRE quanto do diretor adjunto nada mudará, somente a escola deixará de ser administrada pelo estado e a responsabilidade será do município, mas será mesmo que nada mudará? Ou será mais uma tentativa de invisibilização e silenciamento de uma população que sempre lutou para que seus direitos sejam respeitados?


Foi com profunda tristeza que recebemos a notícia que a escola quilombola José Mariano Bento será desativada, e será sala anexa de uma escola urbana do município de Barra do Bugres, memórias de quando era sala anexa de quatro escolas urbanas, cada qual com suas próprias diretrizes, tudo o que não era mais utilizado pelas escolas e estava acumulado em seus depósitos era o que destinavam aos estudantes da comunidade. A arbitrariedade é tamanha que os estudantes dessa escola não foram rematriculados, estão à espera do período de novas matrículas para serem inseridos em uma escola urbana. 


A decisão de municipalização e desativação da Escola José Mariano Bento representa um retrocesso na luta pelo fortalecimento da Educação Escolar Quilombola nas cinco escolas do Estado de Mato Grosso.




O GOVERNO MAURO MENDES FECHA ESCOLAS


O GOVERNO MAURO MENDES É CONTRA EDUCAÇÃO











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Para saber mais um pouquinho sobre o Território Quilombola do Vão Grande e a escola estadual Quilombola José Mariano Bento, sugerimos:


- o artigo A Escola Estadual Quilombola José Mariano Bento e sua contribuição na preservação dos fazeres e dos saberes dos habitantes do Território Quilombola do Vão Grande, pesquisa da professora Madalena Santana de Sales que está disponível em < https://www.researchgate.net/publication/346402632_A_Escola_Estadual_Quilombola_Jose_Mariano_Bento_e_sua_contribuicao_na_preservacao_dos_fazeres_e_dos_saberes_dos_habitantes_do_Territorio_Quilombola_Vao_Grande

RELACult - Revista Latino-Americana de Estudos em Cultura e Sociedade 6(2)

DOI:10.23899/relacult.v6i2.1835



- o livro Narrativas do Interior, de Pedro Silva. Jovem quilombola ali da comunidade do Retiro que escreveu um pouco das tantas conversas com seu avô, o capelão, rezadô, cururueiro e liderança tradicional Francisco Sales da Silva, o pai-véio Chico. E está disponível em < https://escoladeativismo.org.br/wp-content/uploads/2022/04/Narrativas_do_Interior_LIVRO_digital.pdf >

e uma boa explicação do livro numa matéria sobre o dia do rio Jauquara < https://escoladeativismo.org.br/pedro-silva-jovem-quilombola-do-vao-grande-mt-lanca-o-livro-narrativas-do-interior-leia-aqui/ >



- a live de lançamento do livro Narrativas de Interior está disponível em < https://www.youtube.com/watch?app=desktop&v=_rbiIBjLWvk


Amor de índio

clique no link ao lado para ler o texto ouvindo a canção 


O violeiro, cantor e ator Gabriel Sater regravou a canção ‘Amor de Índio’, dos mineiros Ronaldo Bastos e Beto Guedes. A canção diz assim:

Tudo o que move é sagrado / E remove as montanhas / Com todo o cuidado, meu amor

Sagrado é todo aquele espaço, objeto, símbolo, que tem um significado especial para uma pessoa ou grupo. A canção começa afirmando: “Tudo o que move é sagrado”, ou seja, todo movimento de vida, tudo aquilo que dispara movimentos, que coloca em movimento, que movimenta assim como o amor, o fruto do trabalho…

Sim, todo amor é sagrado / E o fruto do trabalho / É mais que sagrado, meu amor

Todo amor é sagrado. Não um amor específico, até essa família tipo papai, a mamãe e filhinhos, essa família tradicional que parte do Brasil tenta proteger aos berros. A canção fala do amor e não fala das pessoas que amam. Se fizermos um esforço de tirar o olhar da pessoa que ama e colocar o nosso olhar no amor, independente das pessoas, se colocarmos nosso olhar no amor de que fala são Francisco de Assis por exemplo, muda tudo. O artista mineiro fala do trabalho como movimento, como fazer humano.

A massa que faz o pão / Vale a luz do teu suor

E o fruto do trabalho é mais que sagrado: o trabalho do Beto Guedes em escrever essa canção… quanto tempo desde a primeira ideia até a canção finalizada? quanto ele pensou, quanto ele conversou, leu, se dedicou em cada frase, em cada palavra? nas escolhas dessa e não de outras palavras, quantos folhas de caderno riscou? sim, esta canção que é fruto do trabalho, é sagrada.

O trabalho do cavalo que puxava carroça desde o sítio até a cidade para oferecer o leite que alguém tirou da vaca, para oferecer o queijo que alguém produziu, para entregar os legumes e as hortaliças que alguém cultivou, para levar as frutas que as mãos humanas colheram mas que a natureza, a árvore, o sol, a chuva e a terra produziram. O fruto do trabalho é mais que sagrado, o trabalho é sagrado, o esforço humano e mesmo o não humano são sagrados porque são a expressão da vida acontecendo. Toda vida é sagrada.

Lembra que o sono é sagrado / E alimenta de horizontes / O tempo acordado, de viver / No inverno, te proteger / No verão, sair pra pescar / No outono, te conhecer / Primavera, poder gostar / No estio, me derreter / Pra na chuva dançar e andar junto…

Penso que para muitos povos indígenas a ideia de amor seja muito interessante, a ideia de trabalho e a relação com o tempo também. Alguns povos consideram o sono sagrado ao ampliarem o significado do sono para além um adereço da vigília, ao ponto de se reunirem logo que acordam para conversar a respeito dos sonhos e, a partir dos sonhos, definir o que será feito no tempo da vigília. Entendo que muito provavelmente a palavra ‘sagrado’ tenha chegado com as caravelas coloniais; Já a ideia, o sentido, o significado do ‘sagrado’ certamente não.

Sim, todo o amor é sagrado

“Índios são os membros de povos e comunidades que têm consciência de sua relação histórica com os indígenas que viviam nesta terra antes da chegada dos europeus”. (Eduardo Viveiros de Castro, 2016)

Amor de Índio é uma canção de Ronaldo Bastos e Beto Guedes.

Ivan Rubens

publicado no Jornal Cidade de Rio Claro na edição de 17 de março de 2025





Amor de Índio com Gabriel Sater





conversa boa sobre Andarilhagens

Conversa boa com Carla Hummel e Murillo Pompermayer no Jornal Cidade de Rio Claro a respeito do livro Andarilhagens - uma pedagogia em movimento


em 19 de dezembro de 2023


disponível Canal de tv do Jornal Cidade de Rio Claro. Acesso em janeiro de 2025



Acesso ao livro: Acesso ao livro Andarilhagens - crônicas de uma pedagogia em movimento
 

Deus me proteja


Para ouvir a canção durante sua leitura, clique aqui: 


Chico César é um artista brasileiro, nordestino da Paraíba, nascido em janeiro de 1964. A canção Deus me Proteja, diz assim:

DEUS ME PROTEJA DE MIM / E DA MALDADE DE GENTE BOA / DA BONDADE DA PESSOA RUIM / DEUS ME GOVERNE E GUARDE, ILUMINE E ZELE ASSIM

É comum as pessoas pedirem proteção contra algum mal. Veja, o artista pede proteção de 3 coisas: 1) proteção dele mesmo, 2) proteção da maldade de gente boa e 3) proteção da bondade da pessoa ruim. Maldade não é exclusividade de gente má assim como bondade não é exclusividade de gente boa. Ninguém é sempre bom, ninguém é sempre mau, nós carregamos toda essa complexidade dentro da gente.

Um amigo me perguntou se “gente ruim pode fazer bondades”. Para ele, quando uma pessoa ruim faz uma bondade, é fake, é maldade com máscara de bondade. Estávamos no interior do Mato Grosso quando, numa audiência pública, um fazendeiro da soja disse: “Eu também quero salvar o rio Paraguai”. Salvar um rio sufocando suas nascentes com monocultura? Salvar o rio jogando veneno no solo? Salvar o rio com o veneno no lençol freático? Salvar o rio com o veneno que escorre para o leito do rio com as águas da chuva?

Eu posso (me) fazer algo ruim, você pode fazer, todos podem fazer algo ruim. Então, a maldade não está necessariamente vinculada ao outro, à ação ou ao desejo de outrem. Até pode ser, mas não necessariamente. Eu não estou livre da prática de maldades, deliberadas ou escondidas, claras ou escamoteadas, conscientes ou inconsciente. Seres humanos não são transparentes, somos opacos, a transparência é ilusão. O caminho se faz caminhando…

CAMINHO SE CONHECE ANDANDO / ENTÃO VEZ EM QUANDO É BOM SE PERDER / PERDIDO FICA PERGUNTANDO / VAI SÓ PROCURANDO / E ACHA SEM SABER

Podemos falar em deriva, palavra de origem latina que significa ‘mudar o lugar da corrente de um rio’. Mudar é bom, mas mudar como? Mudar para onde? Mudar por que? Não sei. Talvez tais respostas sejam o fim da deriva. Porque as perguntas disparam movimentos, boas perguntas nos colocam na deriva, na busca, na procura, na caminhada. E nesse movimento, pode ser até que você encontre algo, que ache mesmo sem se dar conta que achou. Mas há um perigo...

PERIGO É SE ENCONTRAR PERDIDO / DEIXAR SEM TER SIDO / NÃO OLHAR, NÃO VER / BOM MESMO É TER SEXTO SENTIDO / SAIR DISTRAÍDO, ESPALHAR BEM-QUERER

Se encontrar perdido é um perigo. Se perder é se encontrar. Se perder de si, tem muita música popular que fala desse processo, dessa busca, desse risco, desse perigo de se perder e se encontrar. De encontrar dentro de si monstros maléficos, eles nos habitam sim da mesma forma que criaturas de rara beleza também nos habitam. Em cada um ou cada uma de nós rola esse jogo, esse balanço, esse fluxo de contradições, é como se o nosso corpo fosse um campo onde rola uma partida de futebol: as forças que dão vontade de viver X as forças que nos deprimem, que nos amedrontam. Forças de vida X forças de morte. E está tudo bem. O grande desafio é olhar o jogo sem medo e sem julgamentos. Olhar para tudo isso em si mesmo mesmo sabendo que é mais fácil enxergar as contradições dos outros.

Deus me proteja é uma canção do Chico César.

Ivan Rubens


Chico César e Mestrinho muito bem acompanhados.



Publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 21 de janeiro de 2025

Vieste

uma experiência bacana: leia o texto ouvindo a canção                  
para isso, clique aqui: 



Sabe quando você pensa num assunto meio nebuloso, meio sem clareza, meio sem saber com alguma precisão do que é que você está pensando? pois é… E é meio assim mesmo porque o pensamento pode começar como uma massa disforme que, com o tempo, pode ser esculpido. É como uma argila bruta que vai ganhando uma forma de vaso, de cerâmica, de escultura, de artesanato. Uma porção de argila bruta que vai se transformando em obra de arte por força do trabalho de mãos humanas, de esforço humano, do trabalho que é ao mesmo tempo manual e criativo. São as mãos e a cabeça, as mãos e o coração, as mãos movidas por uma força que vem de dentro, do sentimento e das emoções, da alma ou do espírito, do trabalho humano.


Estava ali um pensamento disforme, um embolado na cabeça, um pensamento que voltava. Daqueles que você se pega pensando naquilo sem perceber que era naquilo que você estava pensando. Estava ali um sentimento disforme, um embolado no peito, um sentimento que voltava. Daqueles que você se pega sentindo aquilo sem perceber que era aquilo que você estava sentindo. Não se dispunha das palavras para nomear. Até que uma canção trouxe as primeiras palavras, foi uma canção que trouxe linguagem e, com linguagem, a argila bruta foi se transformando em uma obra concreta, um embolado no peito foi ganhando palavras da cabeça para os dedos que marcam uma folha de papel. A canção diz assim: 


Vieste na hora exata / Com ares de festa e luas de prata / Vieste com encantos, vieste / Com beijos silvestres colhidos pra mim / Vieste com a natureza / Com as mãos camponesas plantadas em mim / Vieste com a cara e a coragem / Com malas, viagens pra dentro de mim / Meu amor


Podemos pensar que alguém chegou, chegou chegando pra valer. Chegou trazendo festa, encantos, beijos silvestres, chegou com a natureza, com mãos camponesas plantadas em mim.

Vieste, a hora e a tempo / Soltando meus barcos e velas ao vento / Vieste, me dando alento / Me olhando por dentro, velando por mim / Vieste de olhos fechados / Num dia marcado, sagrado pra mim / Vieste com a cara e a coragem / Com malas, viagens pra dentro de mim / Meu amor

Chegou promovendo derivas, tirando do lugar seguro e lançando numa extraordinária aventura de vidas, vindas e vivas. Deriva feito barcos com as velas ao vento. Você chegou definitivamente, velando, olhando. Chegou tocando com sua doce voz baixa suave, de poucas palavras, de fala melodiosa e chiado sotaque amapaense. Mas quero chamar a atenção para a parte mais forte da canção que, não à toa, se repete:

Vieste com a cara e a coragem / Com malas, viagens pra dentro de mim / Meu amor

Mas, e se a chegada não for necessariamente de uma pessoa mas de um sentimento? A chegada de uma pessoa pode trazer um sentimento, neste caso tudo está colocado numa pessoa, está personificado. É o triunfo do sujeito. Contudo, dessubjetivada a canção fica mais bonita: um sentimento chegou. Quem chegou foi o amor. Amor como força viva que toca a gente, amor como noite fria na cama quente. Vieste viagens pra dentro de mim, chegou, ficou. Está.

Vieste é uma canção de Ivan Lins e Vitor Martins.

Ivan Rubens








Publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 24 de dezembro de 2024

#Ivan Lins #Vieste #MPB #Jazz na calçada


Deus me proteja


Francisco César Gonçalves é um artista brasileiro. Nascido no interior da Paraíba, município de Catolé do Rocha em janeiro de 1964, Chico César é um dos grandes nomes da MPB na atualidade. Cantor, compositor, escritor, Chico estudou jornalismo na Universidade Federal da Paraíba onde passou pelo grupo Jaguaribe Carne, fazendo poesia de vanguarda. Uma canção direta, curtinha e muito cantada  durante a pandemia do Covid, Deus me Proteja, diz assim...

Deus me proteja de mim / E da maldade de gente boa / Da bondade da pessoa ruim / Deus me governe e guarde, ilumine e zele assim

Eu posso me fazer algum mal? É comum as pessoas pedirem proteção contra algum mal que possa lhe ocorrer, algum mal que alguém possa lhe fazer ou lhe desejar. A canção do Chico Cesar nos convida a pensar que eu posso fazer mal a mim mesmo, neste caso melhor pedir proteção divina: “Deus me proteja de mim” porque eu não sou totalmente bonzinho, eu não sou totalmente boazinha, tenho uma porção de maldade aqui dentro também.

Gente boa pode fazer mal? Sim, pode. O artista parece estar dizendo que a prática da maldade não é exclusividade de gente má. Então ele pede proteção das mandades praticadas por gente boa. Então, melhor pedir proteção divina: “Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa” porque ninguém é totalmente bonzinho, ninguém é totalmente boazinha, todos têm uma porção de maldade dentro de si também.

Estamos seguindo parte por parte, pedacinho por pedacinho desta primeira frase que, na nossa modesta opinião, é muito densa e muito complexa. E chegamos na parte mais difícil. Gente ruim pode fazer bondades? Meu amigo Silvio parece pensar que não, que gente ruim é ruim e, portanto, quando gente ruim resolve fazer uma bondade trata-se da pior bondade, aquela maldade mascarada de bondade. Então, neste caso, é melhor pedir proteção divina: “Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa, da bondade da pessoa ruim”. 

Podemos pensar na perspectiva da hipocrisia. Dia desses, Silvio e eu ouvimos de um fazendeiro que planta soja, mares de soja, um grande sojeiro anunciando numa audiência pública: “Eu também quero salvar o rio Paraguai”. Salvar o rio paraguai com monocultura de soja? Hipocrisia!!! Ou aquela pessoa muito presente na igreja, seja lá qual igreja for, que se apresenta socialmente temente a deus mas não titubeia em passar rasteira nos outros, que prejudica as pessoas, que faz dos fieis mero rebanho eleitoral, temente a deus que defende golpe de estado, que defende o uso de armas. Arma não serve como peso de papel, não serve para evitar que a porta bata com o vento, não. Arma serve para matar!!! Hipocrisia.


A canção é um convite ao pensamento... Eu posso me fazer algo de ruim, algo maléfico? Sim, posso. Você pode fazer, todos podem fazer algo maléfico e ruim. Neste caso, qualquer maldade não está necessariamente vinculada ao outro, a ação de outrem, ao desejo de outra pessoa. Até pode ser, mas não necessariamente. Eu não estou livre da prática de maldades, deliberadas ou escondidas, claras ou escamoteadas em nossas próprias práticas de proteção inconsciente. Seres humanos não têm nada de transparência. A transparência é pura ilusão, ou mais uma prática de escamoteamento. Afinal, o caminho se faz caminhando...

Caminho se conhece andando / Então vez em quando é bom se perder / Perdido fica perguntando / Vai só procurando / E acha sem saber

Bonito pensar nessa deriva. Deriva que também é uma palavra muito bonita. Do latim, significa ‘mudar o lugar da corrente de um rio’, significa portanto mudar, alterar. Que bom. Gosto que as coisas mudem. Na verdade, eu ficaria em pânico se soubesse que as coisas não mudariam. Claro, tem coisa que preferimos conservar mas tem coisas que preferimos mudar. Mas mudar como? Mudar para onde? Mudar por que? Não sei. E talvez tais respostas signifiquem o final da deriva. Neste caso, prefiro as perguntas, elas disparam movimentos, as perguntas, boas perguntas nos colocam na deriva, na busca, na procura, na caminhada. E nesse movimento, pode ser até que você encontre algo, que ache mesmo sem se dar conta que achou. Mas há um perigo...

Perigo é se encontrar perdido / Deixar sem ter sido / Não olhar, não ver 

Se encontrar perdido é um perigo. Se perder é se encontrar. Se perder de si, tem muita música popular que fala desse processo, dessa busca, desse risco, desse perigo de se perder e se achar, de se perder e de se encontrar. De encontrar dentro de si monstros maléficos, eles nos habitam sim da mesma forma que criaturas de rara beleza também nos habitam. E cada um de nós é esse jogo, esse balanço, esse fluxo de contradições, de forças de vida e forças de morte. E está tudo bem. O grande desafio é não deixar de olhar para tudo isso, sem medo e sem julgamentos. Olhar para tudo isso em si mesmo mesmo sabendo que é muito mais fácil perceber contradições e sobretudo hipocrisias nos outros. Contradições e hipocrisias que estão nos outros e estão também, de alguma forma, em cada um e cada uma de nós. 

Não, Silvio, você não defende o rio Paraguai fazendo monocultura. Muito pelo contrário, você defende o rio Paraguai pisoteando a soja e carregando sua bandeira de lutas. Você é um bom educador popular, você faz diferença (e não estou usando um modismo), mais do que bio-diversidades você produz bio-diferenças. 

Bom mesmo é ter sexto sentido / Sair distraído, espalhar bem-querer

Deus me proteja é uma canção do Chico Cesar. E este texto é um encontro com ele e Silvio Munari.


Ivan Rubens

Um pouquinho por dia


Nasce um bebê. É linda essa cena. O choro da criança aparece como um grito: CHEGUEI!!! Mas, cheguei onde? que mundo é esse?

Coloque-se no lugar do bebê. Você fica cerca de 40 semanas dentro de uma barriga, protegido ou protegida, recebendo tudo que precisa para sobreviver. Até que um dia, você, bebê, sai da barriga e vai para o mundo. Mas que mundo é esse?

Um bebê não fala. Mas, se falasse, o que diria?

O que você, bebê, diria na chegada a este nosso mundo?

Então você deixa aquele mundo de água, passa por um estreito apertadíssimo e é lançado/a para fora. Mãos te tocam, te enrolam em panos, dedo na tua boca, no teu nariz e teus olhos… E tem um choque térmico: se num hospital, certamente uma sala com ar condicionado em baixa temperatura, se numa aldeia na floresta provavelmente calor, muito calor. E seus braços se movem, pernas, mãos se movem, e coisas que você não conhece tocam no seu corpo, toalhas, paninhos, mãos, algodão. E um monte de ruído toca seus ouvidos, cheiros e tal, um mamilo encontra tua boca… o que te resta é sentir, sentir e sentir.

Ou seja, sua primeira relação com este mundo extra_uterino acontece nos cinco sentidos: audição, olfato, tato e, até, visão e paladar. Ouvidos, nariz, pele, e até os olhos e a língua são intensamente estimulados, mas você não tem palavras para dizer o que te acontece, ainda não tem linguagem, consciência, razão, isso virá com o tempo. Pelo menos não esta linguagem e esta razão que mobilizamos ao ler (e escrever) este texto. O que está operando em você, bebê, talvez uma experimentação intensiva. Você está nascendo para uma (muitas) vida(s) neste mundo. A primeira relação com este mundo fora do útero é sensível e, acredito, a sensibilidade pode ser cultivada durante a vida.

Tem uma palavra para dizer da “apreensão pelos sentidos”. Estética deriva da palavra grega ‘aisthesis’, é uma forma de conhecer, de apreender o mundo através dos cinco sentidos. Uma música, exemplo de obra de arte, é uma criação humana que toca nossos ouvidos. Uma tela, exemplo de obra de arte, é uma criação humana que toca nossos olhos. Uma poesia, literatura, dança, ou o cheiro de uma comida, um prato bonito, o barulho da cerveja caindo no copo, o cheiro do vinho, a cor do suco da fruta colhida do pé, tudo isso vai criando um desejo. Estamos falando de um cultivo da sensibilidade que nos torna mais humanos, um pouquinho por dia.

O contrário também pode acontecer, podemos cultivar sementinhas de medo e ódio, um pouquinho por dia. Bem, eu acredito nas belezas como produtoras de sensibilidades e de uma humanidade mais interessante. E também acredito na natureza como produtora de uma humanidade mais interessante… quem nunca se sentiu pequenino diante da exuberância e da força da natureza? Diante da imensidão do mar, diante de um por de sol, diante da chuva intensa, diante da força de um rio, diante da lua cheia, diante de um cânion ou de uma cachoeira? Tudo isso pode nos tornar seres vivos mais interessantes, um pouquinho por dia.

Ivan Rubens

Educador popular


publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 25 de novembro de 2024

Esotérico (ou) Gil Moreno


faça a experiência de ler o texto ouvindo a canção. Clique aqui: 



Numa noite de outubro ao lado da Casa do Artesão na cidade de Macapá, durante o 16º Festival Amapá Jazz, a cantora Vanessa Moreno disse: “Gilberto Gil consegue chegar lá no ápice da beleza e traz pra gente, consegue chegar no ápice da dor e também traz aquela informação pra gente de um jeito possível. Ele abraça a gente…” Vanessa convidou o público presente a cantar Esotérico com ela, mas cantar de um jeito diferente. Segundo a artista, “a gente costuma cantar para o outro. Eu fiz um exercício de cantar essa canção pra mim mesma e percebi que muda tudo”. É como se você estivesse olhando nos seus próprios olhos e cantando, é como se você estivesse se olhando no espelho e cantando, falando e ouvindo cada palavra da canção do Gil.

Vanessa Moreno, paulista de São Bernardo do Campo, é uma artista brasileira. Cantora, compositora, instrumentista, aos 37 anos de idade é considerada uma das grandes revelações da música brasileira da atualidade. Sua expressividade e virtuosismo técnico como cantora são cativantes, sua capacidade de transitar por muitos ritmos da música popular, sua performance, sua percussão vocal e corporal inclusive fazendo som com objetos de uso cotidiano marcam suas apresentações. Topamos o convite de Vanessa. Esotérico, de Gilberto Gil, começa assim:

Não adianta nem me abandonar / Porque mistério sempre há de pintar por aí / Pessoas até muito mais vão lhe amar / Até muito mais difíceis que eu pra você / Que eu, que dois, que dez, que dez milhões / Todos iguais

Não adianta fugir daquilo que afeta, que incomoda, que desestabiliza. Não adianta tergiversar, não adianta escapar, adiar, procrastinar não adianta. A vida é cheia de mistérios, o mundo é um grande mistério, toda pessoa tem seus mistérios e uma dose de opacidade. Vida, mundo, gente, grande e doce mistério. Viver, conviver é estar em contato com esse mistério, circulando, fluindo, sempre em movimento. Então, seguindo a pista da Vanessa Moreno, não adianta se abandonar porque o mistério está aí, presente, ligado, circulando pelo mundo, fluindo feito rio.

Até que nem tanto esotérico assim / Se eu sou algo incompreensível / Meu Deus é mais / Mistério sempre há de pintar por aí

Exotérico tem a ver com exótico, com exterior, com o fora. Do grego eso, "dentro de", esoterismo é, então, o saber propriamente interior, que existe para lá das aparências e que exige muito esforço para atingi-lo. Mistério, incompreensível, humano.

Não adianta nem me abandonar / Nem ficar tão apaixonada, que nada! / Que não sabe nadar / Que morre afogada por mim

Para Gil, essa canção é uma tentativa de trazer para o chão a ideia de mistério divino para pensar o esotérico como atingível para o ser humano, no bojo da complexidade de nosso afeto. A canção nasceu da vontade de falar do esotérico como uma relação amorosa, portanto humana. É divino, é humano, é demasiado humano e pode ser muito mais. Pode ir “além do homem” (Nietzsche), pode “ser mais” (Paulo Freire).

Esotérico, de Gilberto Gil com o charme da Vanessa Moreno ao vento equatorial na margem esquerda do rio Amazonas: Esotérico Gil Moreno.


Ivan Rubens
Educador popular



Esotérico. com Gilberto Gil e Caetano Veloso




Esotérico. Com Vanessa Moreno.




Publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 29 de outubro de 2024

Velas Içadas


leia o texto ouvindo a canção.                
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Velas Içadas é uma canção de Ivan Lins e Victor Martins e está no álbum de 1979 chamado A Noite. Velas Içadas diz assim:

SEU CORAÇÃO É UM BARCO DE VELAS IÇADAS / LONGE DOS MARES, DO TEMPO, DAS LOUCAS MARÉS / SEU CORAÇÃO É UM BARCO DE VELAS IÇADAS / SEM NEVOEIROS, TORMENTAS, SEQUER UM REVÉS

Os artistas usam o barco como metáfora para falar de um coração que nunca se lançou, que ainda não se aventurou nas ondas dos mares de amor. Um coração que nunca se aventurou apesar das ‘velas içadas’, ou seja, apesar de preparado e pronto para navegar, prefere permanecer naquele mesmo lugar, num porto ou num cais, distante das tormentas, longe dos mares, do tempo, das loucas marés. A canção continua:

SEU CORAÇÃO É UM BARCO JAMAIS NAVEGADO / NUNCA MOSTROU-SE POR DENTRO, ABRINDO OS PORÕES / SEU CORAÇÃO É UM BARCO QUE VIVE ANCORADO / NUNCA ARRISCOU-SE AO VENTO, ÀS GRANDES PAIXÕES

O coração é descrito como um barco que, mesmo diante das possibilidades, dos mistérios e das aventuras de imensos mares e oceanos, de águas e marés, de ventos e tempestades, de sóis e de luas, de belezas e calmarias, de silêncios e canto de pássaros, de surpresas e imprevistos, que mesmo diante de inimagináveis possibilidades, escolheu manter-se fechado e ancorado evitando, assim, o risco. Existem perigos nas experiências. Toda experiência carrega algum perigo. Vitor e, sobretudo, Ivan podem estar falando dos perigos e riscos que envolvem as grandes paixões, parecem estar falando daquilo que dá mais sabor à vida. Assim, ‘nunca soltou as amarras, nunca ficou à deriva’ pode dizer de uma vida contida onde uma certa obsessão por segurança e certezas dificultam, para não dizer impedem, experimentações. Falo aqui de experiência não como o acúmulo do tempo cronológico, não como acúmulo de saberes específicos, mas a experiência compreendida como aquilo que se experimenta, como experimentação e, no limite, como viver uma vida em intensidade, na potência, naquilo que a vida pode.

NUNCA SOLTOU AS AMARRAS / NUNCA FICOU À DERIVA / NUNCA SOFREU UM NAUFRÁGIO / NUNCA CRUZOU COM PIRATAS E AVENTUREIROS / NUNCA CUMPRIU O DESTINO DAS EMBARCAÇÕES

“Navegar é preciso, viver não é preciso”. Diante da imensidão do mar, o barco precisa de orientação. Astrolábio, bússola, mapas, cartas náuticas, o GPS, radares e computadores garantem a chegada a um destino. Navegar é, portanto, necessário: marinheiros e aventureiros têm necessidade de navegação, ambicionam o desconhecidos, não conseguem ficar muito tempo em terra. Viver, por sua vez, não tem precisão, viver é incerto, viver é arriscar-se. Sem isso a vida pode parecer oca, a vida parece ficar sem sentido. Inerte, parada, ancorada, a vida parece insossa, inerte, desvitalizada e a consequência é a perda da esperança, opacidade da alma, adoecimento do corpo, enfraquecimento dos sentidos. Abrir mão de olhar, ouvir, cheirar o mundo, de tocar e se deixar tocar pelas belezas do mundo, impermeabilizar a pele para o mundo e suas belezas é tornar a humanidade fraca. É como vestir uma armadura, vestir uma capa para se proteger da chuva, do vento, da alegria-destino das embarcações. E, de tão protegidos, deixamos de viver ao ponto de aceitar qualquer coisa como arte, aceitar qualquer coisa como vida, aceitar qualquer coisa como amor.

Ivan Rubens



Igarapé das mulheres (parte II)

clique aqui para ouvir a canção 

leia o texto ouvindo a canção. Deixe um comentário.



Osmar Jr é um artista brasileiro. Nortista de Macapá, é cantor, compositor, poeta, na constelação da música popular amapaense. Iniciou seus estudos musicais aos 14 anos de idade. A canção "Igarapé das Mulheres" diz assim:

O tempo leva tudo / O tempo leva a vida / Lá fora as margaridas fazem cor / Eu lembro a alegria / Boiar naquelas águas / E ver as lavadeiras lavando a dor / E lavavam a minha esperança perdida / De crescer lá no igarapé / E lavavam o medo que tinha da vida / E agora o meu medo o que é?

“Igarapé” está no título, "tempo" inicia a canção. Se igarapé é uma espécie de rio, podemos associar rio e tempo. Rio tem fluxo, tempo tem fluxo. Rio passa, tempo passa. Se o tempo passa, a vida passa. É feito um rio: flui. Rio flui, vida flui. Quantas vezes não nos pegamos pensando: "se eu pudesse voltar no tempo, faria diferente". Mas isso não é possível. Então, “o tempo leva tudo, o tempo leva a vida”. O artista fala de um tempo de alegria, boiar naquelas águas, brincar no igarapé ali mesmo onde mulheres lavavam as roupas, onde margaridas fazem cor. Linda a imagem trazida pelo poeta. A canção continua…

A minha nave, um tronco navegava / As estrelas, entre as palafitas / E as lavadeiras / Nas minhas aventuras, Poraquê / Pirarara, Piranha Peixe-Boi, Boto, Igara / E lavavam a minha paixão corrompida / As mulheres do igarapé / As Joanas, Marias, deusas, Margaridas / Lavarão o que ainda vier

O artista continua nos apresentando paisagens: um tronco que navega levando o artista a uma viagem imaginária, estrelas brilhando, palafitas, lavadeiras. Podemos imaginar mulheres, os pés molhados de igarapé, cantando enquanto lavam roupas, panos, toalhas etc. Peixe elétrico, pirararas, piranhas, bichos perigosos e encantados pela poesia. Quem seriam as mulheres que lavam a paixão corrompida?
Joanas, Marias, deusas, Margaridas. Se Margaridas, mulheres. Mulheres-flores.

Osmar fala de uma paixão corrompida que foi lavada. Mas o que seria uma paixão corrompida? paixão corrompida pode ser compreendida como uma paixão contaminada, paixão estragada, subornada. Paixão destruída, paixão que foi maculada por alguma força de repressão, alguma força de negação. Numa perspectiva mais alegre, podemos pensar que a paixão está sendo restaurada. Sobretudo se considerarmos que a paixão foi lavada pelas mulheres do igarapé. Dada a extraordinária das mulheres e das flores, e da água do igarapé (palavra musical), a corrupção realizada na paixão foi lavada e, não bastasse, o artista sabe o risco permanente que a paixão está submetida. A paixão está ameaçada pela corrupção do mundo humano, das forças que corrompem a paixão ontem, hoje e sempre. Há paixões corrompidas que esperam ser lavadas para virar paixão renovada, e, neste processo de estragar a paixão e reapaixonar, podemos usar a palavra reencanto. Cantar e reencantar, com todos os riscos da corrupção humana.

Corromper a paixão pode ser compreendida como estragar uma paixão. Quem nunca? errar e desejar que o tempo volte para seguir por outros caminhos. Mas foi, e o tempo não volta. É como rio que flui da nascente até a foz, a vida flui do nascimento até a morte. Princípio, meio e fim.


Ivan Rubens

Publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 6 de agosto de 2024





Tempo com você

 Tempo com você

(Cláudio Bolão e Ivan Rubens)



Quero te levar pra conhecer

o amanhecer, ver o sol nascer

Mas que dia lindo

É você sorrindo


O vento assanhando teus cabelos

o seu olhar perdido em tom de apelo

Na aurora então, surge uma paixão


Quero é provar o teu sabor

deliciar o puro mel da flor

Onde o dia é mais puro

e o tempo é mais seguro


Vamos nos deliciar nesse prazer

da nascente até o entardecer

Mais um dia de domingo

ver o teu rosto sorrindo

Felicidade é ter tempo com você


Quero te levar pra ver o mundo

quando a vida passa num segundo

chove agora, então

Macapá, Carvão


Vamos nos deliciar nesse prazer

da nascente até o entardecer

Mais um dia de domingo

ver o teu rosto sorrindo

Felicidade é ter tempo com você


Maré cheia

Maré cheia

(Claudio Bolão e Ivan Rubens) 


uma criança pés na areia
olhos para o rio
imenso e misterioso rio
uma criança pés na areia
olhos para o mar
imenso e misterioso mar

Uma criança brincando na areia
pulando as ondas, virando sereia
É maré cheia
Uma criança brincando na areia
pulando as ondas, virando sereia
É maré cheia

Uma criança entrando na mata
colhendo maracujá,
brincadeira, taperabá.
Uma criança entrando na mata
colhendo burití,
brincadeira, uxí, bacurí.

Uma criança, uma meninota,
o tempo passando outra vida que brota
É maricota.
Uma criança, uma meninota,
o tempo passando outra vida que brota
É maricota.

(solo longo)

Uma criança brincando na areia
pulando as ondas, virando sereia
É maré cheia

É maricota

É mar e flora
É maré cheia

Um voo mais bonito

(Claudio Bolão e Ivan Rubens)


Depois de refutar a si próprio pensando no sonho de igualdade, e um canoeiro vencendo a força do majestoso rio Amazonas com seu remo em punho...
Das terras tucujus onde a floresta é diversidade pura, diferença pura em perfeita harmonia
Assim como o açaí e farinha d'água com peixe ou camarão
Assim como o queijo com goiabada que chegam de fora contribuindo com a diferença e a harmonia
Tudo isso que a vida nos oferece de beleza e alegria,
Natureza viva...
em respeito a tudo isso, em respeito a todos e todas nós, um sonho de igualdade em direitos e oportunidades.... Um voo mais bonito



Lá na margem longa, cotovelo de um rio
no encontro de horizontes
no céu puro, uma fonte a me desaguar
Avisto_o revoar
Avisto_o revoar
Há norteador de coragem
quanta certeza dentro desses corações
No voo mais bonito, como alcançar?
Vem nos acordar
Vem nos acordar
no despontar do sol a cada manhã
toda verdade ali, naquela alvorada de passarinhos
Que sejamos gaivotas
sejamos pardais
que sejais curruíras, curió, tanto faz
de pluma branca, mestiça, amarela
nós somos iguais.
Que sejamos gaivotas
sejamos pardais
que sejais curruíras, curió, tanto faz
Cantando, voando, horizontes abertos
nós somos iguais.

(Cláudio Bolão e Ivan Rubens)

Igarapé das mulheres (parte I)


Inicio a primeira parte deste texto com uma afirmação: cada palavra é um mundo! Se você conhece o museu da língua portuguesa na cidade de São Paulo, ouviu uma frase que é repetida como um refrão: "penetra surdamente no reino das palavras, penetra surdamente no reino das palavras, no reino das palavras, das palavras"... Trata-se do fragmento de um poema de Carlos Drummond de Andrade:

Penetra surdamente no reino das palavras. / Lá estão os poemas que esperam ser escritos. (…) / Chega mais perto e contempla as palavras. / Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra / e te pergunta, sem interesse pela resposta, / pobre ou terrível, que lhe deres: "Trouxeste a chave?"

Para Drummond, cada pessoa carrega (talvez dentro do coração) a chave para entrar no reino das palavras, lugar onde estão os poemas que ainda não foram escritos. O poeta te convida para chegar mais perto, te convida para contemplar as mil facetas das palavras. São faces secretas, facetas escondidas debaixo de uma face aparentemente neutra. Mas as palavras não são neutras, as palavras não são neutras! Por algum motivo meu inconsciente me coloca neste poema do Drummond com uma outra palavra. No lugar de ‘reino, sempre vem a palavra ‘mundo’. Inconscientemente, ‘mundo’ substitui ‘reino’. Na minha leitura mais íntima fica assim: penetra surdamente no mundo das palavras. Penetra surdamente no mundo das palavras, no mundo das palavras, das palavras... Desatento, aquele estado que o inconsciente (danadinho) se manifesta, troco ‘reino’ por ‘mundo’. Gosto dessa manobra inconsciente. Particularmente, gosto mais de mundos do que de reinos. Reino pressupõe um castelo com uma porta imensa, rodeada de soldados, trancas e chaves. Mundos talvez não tenham portas, nem trancas, nem soldados, nem chaves. Pelo menos os mundos aqui imaginados.

Que bom poder imaginar livremente... imaginar mundos abertos, sem portas nem chaves, nem grades de todo tipo, grades físicas como aquelas que protegem janelas das casas nas cidades, tampouco as grades que limitam nossa capacidade de pensar, grades que estão dentro das cabeças, grades que impedem o corpo de sentir, o coração de sentir, grades não físicas mas, por assim dizer, grades imateriais, grades subjetivas.

Uma palavra muito presente na Amazônia e no Pantanal, tem uma sonoridade adorável: Igarapé. A palavra foi adotada do tupi e significa literalmente "caminho de canoa", dada a junção dos termos ‘ygara’ (canoa) e ‘apé’ (caminho). Lindo, não? Na língua Tupi, igarapé é "caminho da canoa"! Podemos dizer que igarapé é um curso d'água constituído por um braço longo de rio ou canal. Apenas pequenas embarcações, como canoas e pequenos barcos, podem navegar pelas águas de um igarapé devido a sua baixa profundidade e por ser estreito.

Na cidade de Macapá/AP, o Igarapé das Mulheres lança suas águas no rio Amazonas, e recebe influência do rio Amazonas. No próximo artigo você conhecerá a canção ‘Igarapé das Mulheres’. Até lá.

Ivan Rubens


publicado no Jornal Cidade de Rio Claro/SP, edição de 9 de julho de 2024

Mu-dança

 



Quando me sentei para escrever esse texto, pensava no tema da ‘mudança’. Não uma mudança de casa ou de endereço, mas num movimento, algo parecido com uma dança. Foi quando pintou uma canção do Gilberto Gil.

Entre 1989 e 1992, Gil foi vereador na cidade de Salvador/BA. Interessante pensar um artista da potência criativa do Gil cumprindo as tarefas típicas de um vereador numa grande cidade, uma rotina de comissões, sessões plenárias, audiências públicas, parlatórios, rotina de um parlamentar. Um artista da música trabalha com palavras, com a estética das palavras, um parlamentar trabalha com a objetividade (ou obscuridade) das palavras. Ambos têm na palavra sua matéria prima. De 1989, a canção ‘O eterno deus Mu dança’ diz assim:

Sente-se a moçada descontente onde quer que se vá / Sente-se que a coisa já não pode ficar como está / Sente-se a decisão dessa gente em se manifestar / Sente-se o que a massa sente, a massa quer gritar: / “A gente quer mu-dança / O dia da mu-dança / A hora da mu-dança / O gesto da mu-dança”

Gil fala da moçada descontente, de uma massa gritando por mu-dança. A canção continua:

Sente-se – e não é somente aqui, mas em qualquer lugar: / Terras, povos diferentes – outros sonhos pra sonhar / Mesmo e até principalmente onde menos queixas há / Mesmo lá, no inconsciente, alguma coisa está / Clamando por mu-dança / O tempo da mu-dança / O sinal da mu-dança / O ponto da mu-dança

É como se o fermento ainda executasse o seu trabalho de crescer a massa do pão. Terras e povos diferentes querem sonhar outros sonhos, reivindica-se o direito de sonhar por si, sonhar outros sonhos coletivos como fazem muitos povos indígenas. A canção sugere que algo ainda desconhecido se move no subterrâneo das cidades, em setores da sociedade, no inconsciente das pessoas e das comunidades. Note que até aqui Gil escreve ‘mu-dança’.

Quando da composição ainda no século passado, Gil “pensava em Lemúria, uma região pré-Atlântica de onde ter-se-ia originado a raça negra”.

Sente-se! Levante-se! Prepare-se para celebrar / O deus Mu dança! / O eterno deus Mu dança! / Talvez em paz Mu dança! / Talvez com sua lança (...)

Uma canção que celebra a mudança não poderia ser fixa, estática, imóvel. Em Gil, as palavras dançam, o texto dança, ele dá movimento. Desloca um grito por ‘mudança’ para ‘mu-dança’ chegando até ‘Mu dança’. E dá a Mu o status de deus, um deus que dança. Se deus, eterno. Então podemos, com o artista, celebrar a eternidade da mudança. Mudança enquanto condição, mudança desejável, mudança utópica como aquele horizonte que nos faz caminhar. Celebremos a mudança como abertura de horizontes possíveis, livres das amarras do certo/errado. Pelo contrário, aproveitemos as mudanças enquanto andanças, enquanto possibilidades de errar. E errando, nos movimentemos, caminhemos, mudemos, dancemos.

Quando me sentei para escrever esse texto, pensava no tema da ‘mudança’. Ao final desta escrita, sinto que alguma mudança aconteceu. Mudança, mu-dança ou Mu dança? Não sei. Aconteceu.

Ivan Rubens




publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 11 de junho de 2024