Eleição 2026
Olhando Belém
Nilson Chaves é um artista brasileiro. Amazônida de Belém, é instrumentista, cantor e compositor. Em sua voz suave e marcante, conheci "Sabor Açaí", "Olho de Boto", "Não Vou Sair", canções que apresentam uma perspectiva da Amazônia. Segundo Chaves, quando o paulista Celso Viáfora esteve em Belém para um show de ambos com Vital Lima, seu primeiro contato com a Amazônia inspirou a canção “Olhando Belém”. Ele se coloca na letra, dizendo assim:
O sol da manhã rasga o céu da Amazônia / Eu olho Belém da janela do hotel / As aves que passam fazendo uma zona / Mostrando pra mim que a Amazônia sou eu / E tudo é muito lindo / É branco, é negro, é índio…
Se imagine num quarto de hotel olhando o amanhecer em Belém. O Sol raiando no horizonte, a passarada fazendo algazarra, os rios, as ilhas, as baías ganhando as cores da manhã. Viáfora nos apresenta uma cenário muito lindo: “É branco, é negro, é índio”.
No Rio Tietê mora a minha verdade / Sou caipira, sede urbana dos matos / Um caipora que nasceu na cidade / Um Curupira de gravata e sapato / Sem nome e sem dinheiro / Sou mais um brasileiro…
Celso Viáfora é paulistano. Ele se denomina “caipira com sede urbana dos matos”, caipora, “um Curupira de gravata e sapato”. Me identifico muito com este trecho da canção, exceto pela gravata e pelo sapato. E penso sobre a verdade: existe uma verdade? Se sim, onde mora a verdade? Onde mora a minha verdade? Onde mora a tua verdade? Gosto mesmo é de pensar que a verdade, seja ela qual for, mora num rio. A verdade limitada pelas margens, a verdade em fluxo que vai das nascentes até a foz. A verdade que erode e sedimenta, a verdade que arrasta, carrega, movimenta.
Olhando Belém enquanto uma canoa desce o rio / E o curumim assiste da canoa um Boeing riscando o vazio / Eu posso acreditar que ainda dá pra gente viver numa boa / Os rios da minha aldeia são maiores que os de Fernando Pessoa
Entre comigo na cena: uma pequena canoa descendo um rio imenso, dentro da canoa um curumim olhando para o alto, olhando para um grande avião riscando do céu azul. O que passaria na cabeça desta criança? O que pensaria o curumim? Olhando da janela do avião, o que tu pensarias se visse lá do alto uma canoa e um curumim singrando o rio?
Em ‘O Guardador de Rebanhos’, Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) fala do rio Tejo, e diz que os rios da sua aldeia são maiores. Certamente não fala da dimensão física mas de sua singularidade: são maiores por serem únicos. São únicos porque carregam um tanto do Caeiro e do Pessoa.
Molhando os meus olhos de verde e floresta / Sentindo na pele o que disse o poeta / Eu olho o futuro e pergunto pra insônia / Será que o Brasil nunca viu a Amazônia? / E vou dormir com isso / Será que é tão difícil?
É desta Amazônia que o artista está falando: uma Amazônia produtora de sentidos, de emoções, uma Amazônia belíssima que, ao tocar o artista, se faz poesia.
E o sol da manhã rasga o céu da Amazônia…
Olhando Belém é uma canção de Celso Viáfora lindamente interpretada por Nilson Chaves. Aproveite para ouvir “Coração Sonhador”, outra belíssima canção de Nilson Chaves.
Ivan Rubens
Publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 04 de agosto de 2026.
Educação e territórios tradicionais
Amazônia setentrional, julho de 2026. Margem esquerda do imenso rio Amazonas. A equipe de uma escola comunitária parte para atividades pedagógicas com as famílias de estudantes residentes na Reserva Extrativista do Rio Cajari. Trata-se de um uma viagem de quase 5 horas, dependendo da maré, da direção e da velocidade do vento. Embarcam numa voadeira espaçosa e potente. Voadeira é um barco com casco de ferro, assentos e cobertura de lona comum.
Primeiro navegaram lentamente por um igarapé, cerca de 20 minutos. No Rio Amazonas, navegaram contra o fluxo das águas por cerca de 3 horas até o sinuoso Rio Cajari por onde acessam a Reserva Extrativista. A RESEX Cajari, criada em 1990, é uma unidade de conservação da biodiversidade com mais de 532 mil hectares localizada no sul do estado do Amapá cujo objetivo é proteger o modo de vida, a cultura e a subsistência das populações tradicionais, trata-se de uma das maiores áreas de ocorrência natural de castanha-da-amazônia da região. Na prática, não chegamos até os castanhais. Imagine uma árvore imensa cuja copa busca o sol acima das outras árvores que estão ao seu redor. Castanhais são as áreas onde predominam as Castanheiras, a árvore que produz a castanha da amazônia, ou castanha do Brasil, conhecida como castanha do Pará mais para o Sudeste e Sul do país.
Navegamos pelo Rio Cajari desde sua foz até o médio curso, os castanhais estão no alto curso do Cajari. O objetivo da visita às famílias é conversar sobre a vida: educação e saúde. Este é o processo de reconstrução coletiva dos Temas Geradores dos Planos de Estudo (PE’s). A Escola Família adota a Pedagogia da Alternância. Foram duas rodas de conversa muito interessantes em duas comunidades ribeirinhas. Além de contribuir na revitalização dos PE’s, muito tempo foi dedicado a conversar com mães, pais, avós, tios e tias, irmãos e irmãs, ou seja, com a comunidade que educa adolescentes e jovens de mãos dadas com a escola. Educar nos dias de hoje é um desafio imenso. Educar na Amazônia sob constante ameaça é um desafio ainda maior. Neste sentido, uma Reserva Extrativista é território de resistência, de resistência ancestral, de resistência e ao mesmo tempo de preservação deste pedacinho da amazônia. De preservação da vida.
Armamos as redes e dormimos sobre as águas do Cajari. No retorno para a escola, navegando no sentido do fluxo, nossa voadeira navegava rapidamente. Tudo favorável: pouco vento a favor, céu azul, o sol no final da tarde iluminando as árvores na margem direita naquela luz ótima para fotografar. Conversa animada na voadeira, falávamos das comunidades e das maravilhas que ouvimos, fazíamos planos para as próximas rodas de conversas até que uma verdadeira tempestade caiu sobre o imenso Rio Amazonas. Vento, ondas, maresia, chuva, noite: a natureza mostrando a sua força. Chegamos bem, um tanto molhados/as é verdade, molhados/as e convictos/as que educação escolar em territórios tradicionais passa pela aliança, passa pela comunhão entre os saberes escolares e os saberes tradicionais, escola e comunidade de mãos dadas no maravilhoso desafio de educar. Mãos que seguram a vida.
Publicado no Jornal Cidade de Rio Claro na edição de 7 de julho de 2026
Ao que vai chegar
19 de abril
Neste mês de abril aconteceu o 22º Acampamento Terra Livre,
marco na luta indígena. A capital federal, esteve ocupada pelas lideranças e
povos indígenas. A cidade estava colorida, pintada, mais alegre com as danças e
cantos indígenas, seus cocares, suas penas, seus corpos pintados. Indígenas são
expressão da arte e da beleza. Por uma estética indígena para um mundo melhor e
mais belo.
Ivan Rubens
publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 14 de abril de 2026
O que é que a vida vai fazer de mim?
O que é, o que é?
"A beleza de ser um eterno aprendiz", frase de Luiz Gonzaga Jr, estampada no material didático de um desses institutos/empresas que se denominam "amigos da escola". A frase está recortada de uma canção que diz assim:
Eu fico com a pureza da resposta das crianças: é a vida, é bonita e é bonita… Viver e não ter a vergonha de ser feliz / Cantar e cantar e cantar / A beleza de ser um eterno aprendiz / Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será / Mas isto não impede que eu repita / É bonita, é bonita e é bonita
O referido instituto usa o Gonzaguinha para falar de ensino e aprendizagem. Mas talvez o Gonzaguinha esteja falando mais do que isso. O artista lança perguntas:
E a vida? / E a vida o que é, diga lá, meu irmão? / Ela é a batida de um coração? / Ela é uma doce ilusão? / Mas e a vida? / Ela é maravilha ou é sofrimento? / Ela é alegria ou lamento? / O que é, o que é, meu irmão?
São muitas possibilidades de resposta. Consta que o Gonzaguinha enviou essas perguntas para muita gente e, organizando as respostas que chegaram para ele, foi costurando tais respostas na letra da canção.
Há quem fale que a vida da gente / É um nada no mundo / É uma gota, é um tempo / Que nem dá um segundo / Há quem fale que é um divino mistério profundo / É o sopro do criador numa atitude repleta de amor / Você diz que é luta e prazer / Ela diz que a vida é viver / Ela diz que melhor é morrer / Pois amada não é e o verbo é sofrer / Eu só sei que confio na moça / E na moça eu boto a força da fé
Há quem diga isso da vida, há quem diga aquilo da vida. Gonzaguinha confia na moça e afirma com ela: "somos nós que fazemos a vida", fazemos a vida como dá, fazemos a vida com limitações. Mas fazemos a vida sempre orientados por um desejo...
Somos nós que fazemos a vida / Como der ou puder ou quiser / Sempre desejada, por mais que esteja errada / Ninguém quer a morte, só saúde e sorte / E a pergunta roda e a cabeça agita / Fico com a pureza da resposta das crianças / É a vida, é bonita e é bonita
O tempo passa e a morte é certa. Entre o passado (que não volta mais) e o futuro (incerto), temos o presente. O que temos feito da vida neste tempo presente? E, mesmo tendo perguntado para muita gente, Gonzaguinha conclui a canção com a força vital das crianças, essas pessoas que entendem de presente: A vida é bonita, é muito bonita.
Viver e não ter a vergonha de ser feliz / Cantar e cantar e cantar / A beleza de ser um eterno aprendiz / Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será / Mas isto não impede que eu repita / É bonita, é bonita e é bonita
Criança canta, criança brinca. Criança vive as belezas e as sutilezas do aqui e do agora. Criança é presença. Quem nunca viu uma criança concentrada numa brincadeira, como se o mundo estivesse completamente parado? Uma criança não passa despercebida. Se estivesse vivo, o que Gonzaguinha diria ao instituto amigo da escola que usou sua frase no material didático?
O Que É O Que É? é um samba de Luiz Gonzaga Jr.
Bom finalzinho de carnaval.
Ivan Rubens
publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 17 de fevereiro de 2026
Tatuagem
Tatuagem é uma das maneiras de modificar o corpo muito conhecida e praticada. Trata-se da marcação da pele humana realizada com a aplicação subcutânea de pigmentos coloridos (ou não). Uma prática muito antiga.
Diário de um Alagado
no link abaixo você encontra o
trata-se de um texto escrito no calor dos acontecimentos, um diário mesmo registrando um pouco dos acontecimentos e experiências no dia do Rio Paraguai, no pantanal do Mato Grosso, em 2024.







