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O que é que a vida vai fazer de mim?

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Dediquei um tempo do final de semana, remexi minhas coisas, tirei os livros da prateleira, selecionei canções para ouvir novamente. Parece que eu estava procurando alguma coisa nos confins da memória. Eu estava procurando ainda sem saber que estava procurando. Tampouco sabia o que procurava, quem procurava... até que um caminho se desenhou.

Encontrei uma linha possível, um fio condutor, num dos documentários sobre a vida e a obra do Chico Buarque de Holanda. Ele falava do seu processo criativo, Chico é escritor e compositor, falava especialmente do seu processo na composição de suas canções... Ele diz traçar um caminho a percorrer, diz ficar atento ao trajeto pois muitas coisas podem acontecer durante o processo. Por exemplo: uma palavra pode aparecer por acaso, um acorde ao violão pode aparecer por errado na busca da melodia. Mas erro? seria mesmo erro? Em sendo criação, talvez não exista essa dicotomia certo nem errado. Chico sugere que um suposto erro apresenta um caminho possível, um outro caminho possível, um caminho diferente ou mesmo um atalho que pode levar a um resultado ainda mais interessante. Segundo ele, o próprio Leonardo Da Vinci iniciava seus murais aproveitando as manchas existentes nas paredes para cobri-las com sua obra.

Ainda no documentário, ele fala da canção João e Maria. Talvez você conheça. Diz assim:

Agora eu era o herói e o meu cavalo só falava inglês / A noiva do cowboy era você além das outras três. / Eu enfrentava os batalhões, os alemães e seus canhões / guardava o meu bodoque e ensaiava o rock para as matinês.

Chico recebeu, lá pelos idos de 1976-77, uma fita cassete do Sivuca com o pedido de uma letra. O toque da sanfona e a melodia provocaram em Chico a lembrança das brincadeiras de infância. Fantasiando, as crianças diziam: agora eu era o herói; Outra criança: Agora eu era o rei. E outra criança: Agora eu era a rainha. E vai por aí. Se levar ao pé da letra, seria: Agora eu sou, ou, na semana passada eu era. Mas num mundo das brincadeiras, os tempos se misturam, passado e presente se misturam: Agora eu era. O artista aceita e nos ajuda a olhar para a beleza disso.

Agora eu era o rei, era o bedel e era também juiz / E pela minha lei a gente era obrigado a ser feliz...

E tem uma parte da canção que eu acho maravilhosa. Ela me leva a pensar no outro, na outra. Vivemos num mundo povoado de gente, gente diferente entre si e diferente de nós. O mundo nos mete medo, o outro nos mete medo. Mas com o apoio do outro, da outra, juntos podemos superar o medo.

Vem, me dê a mão / A gente agora já não tinha medo / No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido...

A canção termina assim:

Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim / Pra lá deste quintal era uma noite que não tem mais fim / Pois você sumiu no mundo sem me avisar / E agora eu era um louco a perguntar: o que é que a vida vai fazer de mim?

João e Maria é uma canção de Sivuca e Chico Buarque de Holanda.


publicado no Jornal Cidade de Rio Claro de 17 de março de 2026





Amor de índio

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O violeiro, cantor e ator Gabriel Sater regravou a canção ‘Amor de Índio’, dos mineiros Ronaldo Bastos e Beto Guedes. A canção diz assim:

Tudo o que move é sagrado / E remove as montanhas / Com todo o cuidado, meu amor

Sagrado é todo aquele espaço, objeto, símbolo, que tem um significado especial para uma pessoa ou grupo. A canção começa afirmando: “Tudo o que move é sagrado”, ou seja, todo movimento de vida, tudo aquilo que dispara movimentos, que coloca em movimento, que movimenta assim como o amor, o fruto do trabalho…

Sim, todo amor é sagrado / E o fruto do trabalho / É mais que sagrado, meu amor

Todo amor é sagrado. Não um amor específico, até essa família tipo papai, a mamãe e filhinhos, essa família tradicional que parte do Brasil tenta proteger aos berros. A canção fala do amor e não fala das pessoas que amam. Se fizermos um esforço de tirar o olhar da pessoa que ama e colocar o nosso olhar no amor, independente das pessoas, se colocarmos nosso olhar no amor de que fala são Francisco de Assis por exemplo, muda tudo. O artista mineiro fala do trabalho como movimento, como fazer humano.

A massa que faz o pão / Vale a luz do teu suor

E o fruto do trabalho é mais que sagrado: o trabalho do Beto Guedes em escrever essa canção… quanto tempo desde a primeira ideia até a canção finalizada? quanto ele pensou, quanto ele conversou, leu, se dedicou em cada frase, em cada palavra? nas escolhas dessa e não de outras palavras, quantos folhas de caderno riscou? sim, esta canção que é fruto do trabalho, é sagrada.

O trabalho do cavalo que puxava carroça desde o sítio até a cidade para oferecer o leite que alguém tirou da vaca, para oferecer o queijo que alguém produziu, para entregar os legumes e as hortaliças que alguém cultivou, para levar as frutas que as mãos humanas colheram mas que a natureza, a árvore, o sol, a chuva e a terra produziram. O fruto do trabalho é mais que sagrado, o trabalho é sagrado, o esforço humano e mesmo o não humano são sagrados porque são a expressão da vida acontecendo. Toda vida é sagrada.

Lembra que o sono é sagrado / E alimenta de horizontes / O tempo acordado, de viver / No inverno, te proteger / No verão, sair pra pescar / No outono, te conhecer / Primavera, poder gostar / No estio, me derreter / Pra na chuva dançar e andar junto…

Penso que para muitos povos indígenas a ideia de amor seja muito interessante, a ideia de trabalho e a relação com o tempo também. Alguns povos consideram o sono sagrado ao ampliarem o significado do sono para além um adereço da vigília, ao ponto de se reunirem logo que acordam para conversar a respeito dos sonhos e, a partir dos sonhos, definir o que será feito no tempo da vigília. Entendo que muito provavelmente a palavra ‘sagrado’ tenha chegado com as caravelas coloniais; Já a ideia, o sentido, o significado do ‘sagrado’ certamente não.

Sim, todo o amor é sagrado

“Índios são os membros de povos e comunidades que têm consciência de sua relação histórica com os indígenas que viviam nesta terra antes da chegada dos europeus”. (Eduardo Viveiros de Castro, 2016)

Amor de Índio é uma canção de Ronaldo Bastos e Beto Guedes.

Ivan Rubens

publicado no Jornal Cidade de Rio Claro na edição de 17 de março de 2025





Amor de Índio com Gabriel Sater





Velas Içadas


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Velas Içadas é uma canção de Ivan Lins e Victor Martins e está no álbum de 1979 chamado A Noite. Velas Içadas diz assim:

SEU CORAÇÃO É UM BARCO DE VELAS IÇADAS / LONGE DOS MARES, DO TEMPO, DAS LOUCAS MARÉS / SEU CORAÇÃO É UM BARCO DE VELAS IÇADAS / SEM NEVOEIROS, TORMENTAS, SEQUER UM REVÉS

Os artistas usam o barco como metáfora para falar de um coração que nunca se lançou, que ainda não se aventurou nas ondas dos mares de amor. Um coração que nunca se aventurou apesar das ‘velas içadas’, ou seja, apesar de preparado e pronto para navegar, prefere permanecer naquele mesmo lugar, num porto ou num cais, distante das tormentas, longe dos mares, do tempo, das loucas marés. A canção continua:

SEU CORAÇÃO É UM BARCO JAMAIS NAVEGADO / NUNCA MOSTROU-SE POR DENTRO, ABRINDO OS PORÕES / SEU CORAÇÃO É UM BARCO QUE VIVE ANCORADO / NUNCA ARRISCOU-SE AO VENTO, ÀS GRANDES PAIXÕES

O coração é descrito como um barco que, mesmo diante das possibilidades, dos mistérios e das aventuras de imensos mares e oceanos, de águas e marés, de ventos e tempestades, de sóis e de luas, de belezas e calmarias, de silêncios e canto de pássaros, de surpresas e imprevistos, que mesmo diante de inimagináveis possibilidades, escolheu manter-se fechado e ancorado evitando, assim, o risco. Existem perigos nas experiências. Toda experiência carrega algum perigo. Vitor e, sobretudo, Ivan podem estar falando dos perigos e riscos que envolvem as grandes paixões, parecem estar falando daquilo que dá mais sabor à vida. Assim, ‘nunca soltou as amarras, nunca ficou à deriva’ pode dizer de uma vida contida onde uma certa obsessão por segurança e certezas dificultam, para não dizer impedem, experimentações. Falo aqui de experiência não como o acúmulo do tempo cronológico, não como acúmulo de saberes específicos, mas a experiência compreendida como aquilo que se experimenta, como experimentação e, no limite, como viver uma vida em intensidade, na potência, naquilo que a vida pode.

NUNCA SOLTOU AS AMARRAS / NUNCA FICOU À DERIVA / NUNCA SOFREU UM NAUFRÁGIO / NUNCA CRUZOU COM PIRATAS E AVENTUREIROS / NUNCA CUMPRIU O DESTINO DAS EMBARCAÇÕES

“Navegar é preciso, viver não é preciso”. Diante da imensidão do mar, o barco precisa de orientação. Astrolábio, bússola, mapas, cartas náuticas, o GPS, radares e computadores garantem a chegada a um destino. Navegar é, portanto, necessário: marinheiros e aventureiros têm necessidade de navegação, ambicionam o desconhecidos, não conseguem ficar muito tempo em terra. Viver, por sua vez, não tem precisão, viver é incerto, viver é arriscar-se. Sem isso a vida pode parecer oca, a vida parece ficar sem sentido. Inerte, parada, ancorada, a vida parece insossa, inerte, desvitalizada e a consequência é a perda da esperança, opacidade da alma, adoecimento do corpo, enfraquecimento dos sentidos. Abrir mão de olhar, ouvir, cheirar o mundo, de tocar e se deixar tocar pelas belezas do mundo, impermeabilizar a pele para o mundo e suas belezas é tornar a humanidade fraca. É como vestir uma armadura, vestir uma capa para se proteger da chuva, do vento, da alegria-destino das embarcações. E, de tão protegidos, deixamos de viver ao ponto de aceitar qualquer coisa como arte, aceitar qualquer coisa como vida, aceitar qualquer coisa como amor.

Ivan Rubens