Entre lutas e loucuras

Sinto que estou no vórtice do furacão
Sou tragada pela fúria incandescente do dragão
Esta cidade que me oferece tudo, exige contrapartida:
tira minha energia
A luta fere
Cobra um preço fatal
Mesmo assim luto pelos que sofrem
Sem perceber o sofrimento penetrando
Lenta e cotidianamente
E meu tempo, nesta cidade com pressa, é sofrimento
Para viver
não tenho tempo
Para andar
não tenho tempo
Para alegria
não tenho tempo
Para música, 
quase não tenho tempo

Mas tenho amigas. 
Conto com elas p extravasar
No bar
Para falar de tudo: da luta, do trabalho, do sofrimento
Sofrimento dos outros, é claro
E das frustrações travestidas de que?
De luta
Filha da luta
Filhas de luta
Filha ...


Não aguento mais,  rapaz
Recorro
Até lembrar que a luta exige: eu te odeio,
rapaz
Você me oprime 
Me faz sofrer
Machista
Opressor
Séculos de patriarcado estão em você
Vamos matá-lo para acabar com tudo isso
E escrever uma outra história
Quem sabe um patriarcado de outra cor
De outro gênero
Preciso do patriarcado para sobreviver
Preciso da luta para sobreviver
Porque talvez ainda não possa viver


Pra que tanto céu?
Pra que tanto mar?


Sinto que a loucura está entrando em mim
Ela está me ocupando
Descobriu as fissuras do meu corpo
Respiro a loucura
Vejo a loucura
Como a loucura
Ouço sua voz me chamado…
Ela já abriu seu caminho
Fez picada na minha mata virgem
A máquina de produzir doenças me quer matéria prima
Anima?
Desanima

36 anos de idade


Tinha eu 14 anos de idade / Quando meu pai me chamou / Perguntou-me se eu queria / Estudar Filosofia / Medicina ou Engenharia / Tinha eu que ser doutor

Ela nasceu numa família simples do interior. O pai foi um operário brilhante, desses que produz suas próprias ferramentas. Um criador de problemas de toda ordem. Digo problema no sentido forte da palavra. Quando ele se via diante de um problema, procurava superá-lo criando uma situação nova. Veja que não falei em solução do problema. Explico: para ele um problema não demandava uma solução. A solução diminui a criação de novidades. Era um homem de possibilidades, criava possibilidades, expandia a vida e ampliava o mundo. Agora encontrei as palavras precisas: ele era um criador de mundos. Uma fotografia nos dá a imagem simbólica do que estou tentando dizer com palavras: uma criança tentando equilibrar na bicicleta, alegria e medo estampados no rosto negro, um lindo sorriso infantil e a ousadia de quem vai aos poucos se soltando das mãos do pai. Era um grande homem. Um homem que é mais de mil. Mil gestos, poucas palavras. Há de mil sons.

Da mãe herdou a convicção, firmeza e ternura. Com a mãe aprendeu muita coisa, da alquimia gastronômica às bruxarias na cozinha, do encanto com a transformação dos alimentos e sabores aos cuidados com o corpo. Aprendeu a cuidar. Isso mesmo, cuidado é algo que se aprende. Aprendeu a cuidar da terra, cuidar das pessoas, cuidar das coisas, cuidar da casa. Casa e corpo aqui são quase sinônimos. Com o tempo foi aprendendo também a cuidar das coisas do mundo.

Mas a minha aspiração / Era ter um violão / Para me tornar sambista / Ele então me aconselhou / Sambista não tem valor / Nesta terra de doutor / E seu doutor / O meu pai tinha razão

Ela poderia ser o que quisesse. Engenheira? advogada? médica? Todas as profissões que, acredita-se garantir ascensão social e financeira estariam ao alcance das suas mãos. Determinada como a mãe, inventiva como o pai, ela trabalha muito. Reconhece o prestígio e o dinheiro, mas não para nisso. Não se contenta com as superfícies. Ela mergulha fundo, procura tesouros escondidos no fundo do mar.

Vejo um samba ser vendido / E o sambista esquecido / E seu verdadeiro autor / Eu estou necessitado / Mas meu samba encabulado / Eu não vendo não senhor

Para ela, viver é leveza e alegria. Valoriza sobretudo as artes. No cinema ela cria personagens, nas canções ela pensa, na poesia ela dança. Com essa ginga de passista desenvolveu uma habilidade incrível de lidar com as pessoas. Na vida aprendeu que o mundo é povoado de gente diferente dela. Aprendeu que a morte é inexorável e a diferença é condição. Assim ela se produz humana com indígenas, nos quilombos, com os sem teto e sem terra, com pescadores e ribeirinhos. Deseja os ambientes equilibrados e alimentação saudável. Luta no campo e na cidade, afirma a condição feminina e a libertação dos homens da opressão do machismo. Enfrenta a desigualdade social e econômica. Vive entre os esfarrapados do mundo e com eles luta. Poetisa de povo, mestra em gente, doutora em vida melhor para todos e todas. Ela é professora porque acredita que o mundo pode ser melhor, sempre. 14 anos é uma canção do Paulinho da Viola.