Amor de índio

clique no link ao lado para ler o texto ouvindo a canção 


O violeiro, cantor e ator Gabriel Sater regravou a canção ‘Amor de Índio’, dos mineiros Ronaldo Bastos e Beto Guedes. A canção diz assim:

Tudo o que move é sagrado / E remove as montanhas / Com todo o cuidado, meu amor

Sagrado é todo aquele espaço, objeto, símbolo, que tem um significado especial para uma pessoa ou grupo. A canção começa afirmando: “Tudo o que move é sagrado”, ou seja, todo movimento de vida, tudo aquilo que dispara movimentos, que coloca em movimento, que movimenta assim como o amor, o fruto do trabalho…

Sim, todo amor é sagrado / E o fruto do trabalho / É mais que sagrado, meu amor

Todo amor é sagrado. Não um amor específico, até essa família tipo papai, a mamãe e filhinhos, essa família tradicional que parte do Brasil tenta proteger aos berros. A canção fala do amor e não fala das pessoas que amam. Se fizermos um esforço de tirar o olhar da pessoa que ama e colocar o nosso olhar no amor, independente das pessoas, se colocarmos nosso olhar no amor de que fala são Francisco de Assis por exemplo, muda tudo. O artista mineiro fala do trabalho como movimento, como fazer humano.

A massa que faz o pão / Vale a luz do teu suor

E o fruto do trabalho é mais que sagrado: o trabalho do Beto Guedes em escrever essa canção… quanto tempo desde a primeira ideia até a canção finalizada? quanto ele pensou, quanto ele conversou, leu, se dedicou em cada frase, em cada palavra? nas escolhas dessa e não de outras palavras, quantos folhas de caderno riscou? sim, esta canção que é fruto do trabalho, é sagrada.

O trabalho do cavalo que puxava carroça desde o sítio até a cidade para oferecer o leite que alguém tirou da vaca, para oferecer o queijo que alguém produziu, para entregar os legumes e as hortaliças que alguém cultivou, para levar as frutas que as mãos humanas colheram mas que a natureza, a árvore, o sol, a chuva e a terra produziram. O fruto do trabalho é mais que sagrado, o trabalho é sagrado, o esforço humano e mesmo o não humano são sagrados porque são a expressão da vida acontecendo. Toda vida é sagrada.

Lembra que o sono é sagrado / E alimenta de horizontes / O tempo acordado, de viver / No inverno, te proteger / No verão, sair pra pescar / No outono, te conhecer / Primavera, poder gostar / No estio, me derreter / Pra na chuva dançar e andar junto…

Penso que para muitos povos indígenas a ideia de amor seja muito interessante, a ideia de trabalho e a relação com o tempo também. Alguns povos consideram o sono sagrado ao ampliarem o significado do sono para além um adereço da vigília, ao ponto de se reunirem logo que acordam para conversar a respeito dos sonhos e, a partir dos sonhos, definir o que será feito no tempo da vigília. Entendo que muito provavelmente a palavra ‘sagrado’ tenha chegado com as caravelas coloniais; Já a ideia, o sentido, o significado do ‘sagrado’ certamente não.

Sim, todo o amor é sagrado

“Índios são os membros de povos e comunidades que têm consciência de sua relação histórica com os indígenas que viviam nesta terra antes da chegada dos europeus”. (Eduardo Viveiros de Castro, 2016)

Amor de Índio é uma canção de Ronaldo Bastos e Beto Guedes.

Ivan Rubens

publicado no Jornal Cidade de Rio Claro na edição de 17 de março de 2025





Amor de Índio com Gabriel Sater





conversa boa sobre Andarilhagens

Conversa boa com Carla Hummel e Murillo Pompermayer no Jornal Cidade de Rio Claro a respeito do livro Andarilhagens - uma pedagogia em movimento


em 19 de dezembro de 2023


disponível Canal de tv do Jornal Cidade de Rio Claro. Acesso em janeiro de 2025



Acesso ao livro: Acesso ao livro Andarilhagens - crônicas de uma pedagogia em movimento
 

Deus me proteja


Para ouvir a canção durante sua leitura, clique aqui: 


Chico César é um artista brasileiro, nordestino da Paraíba, nascido em janeiro de 1964. A canção Deus me Proteja, diz assim:

DEUS ME PROTEJA DE MIM / E DA MALDADE DE GENTE BOA / DA BONDADE DA PESSOA RUIM / DEUS ME GOVERNE E GUARDE, ILUMINE E ZELE ASSIM

É comum as pessoas pedirem proteção contra algum mal. Veja, o artista pede proteção de 3 coisas: 1) proteção dele mesmo, 2) proteção da maldade de gente boa e 3) proteção da bondade da pessoa ruim. Maldade não é exclusividade de gente má assim como bondade não é exclusividade de gente boa. Ninguém é sempre bom, ninguém é sempre mau, nós carregamos toda essa complexidade dentro da gente.

Um amigo me perguntou se “gente ruim pode fazer bondades”. Para ele, quando uma pessoa ruim faz uma bondade, é fake, é maldade com máscara de bondade. Estávamos no interior do Mato Grosso quando, numa audiência pública, um fazendeiro da soja disse: “Eu também quero salvar o rio Paraguai”. Salvar um rio sufocando suas nascentes com monocultura? Salvar o rio jogando veneno no solo? Salvar o rio com o veneno no lençol freático? Salvar o rio com o veneno que escorre para o leito do rio com as águas da chuva?

Eu posso (me) fazer algo ruim, você pode fazer, todos podem fazer algo ruim. Então, a maldade não está necessariamente vinculada ao outro, à ação ou ao desejo de outrem. Até pode ser, mas não necessariamente. Eu não estou livre da prática de maldades, deliberadas ou escondidas, claras ou escamoteadas, conscientes ou inconsciente. Seres humanos não são transparentes, somos opacos, a transparência é ilusão. O caminho se faz caminhando…

CAMINHO SE CONHECE ANDANDO / ENTÃO VEZ EM QUANDO É BOM SE PERDER / PERDIDO FICA PERGUNTANDO / VAI SÓ PROCURANDO / E ACHA SEM SABER

Podemos falar em deriva, palavra de origem latina que significa ‘mudar o lugar da corrente de um rio’. Mudar é bom, mas mudar como? Mudar para onde? Mudar por que? Não sei. Talvez tais respostas sejam o fim da deriva. Porque as perguntas disparam movimentos, boas perguntas nos colocam na deriva, na busca, na procura, na caminhada. E nesse movimento, pode ser até que você encontre algo, que ache mesmo sem se dar conta que achou. Mas há um perigo...

PERIGO É SE ENCONTRAR PERDIDO / DEIXAR SEM TER SIDO / NÃO OLHAR, NÃO VER / BOM MESMO É TER SEXTO SENTIDO / SAIR DISTRAÍDO, ESPALHAR BEM-QUERER

Se encontrar perdido é um perigo. Se perder é se encontrar. Se perder de si, tem muita música popular que fala desse processo, dessa busca, desse risco, desse perigo de se perder e se encontrar. De encontrar dentro de si monstros maléficos, eles nos habitam sim da mesma forma que criaturas de rara beleza também nos habitam. Em cada um ou cada uma de nós rola esse jogo, esse balanço, esse fluxo de contradições, é como se o nosso corpo fosse um campo onde rola uma partida de futebol: as forças que dão vontade de viver X as forças que nos deprimem, que nos amedrontam. Forças de vida X forças de morte. E está tudo bem. O grande desafio é olhar o jogo sem medo e sem julgamentos. Olhar para tudo isso em si mesmo mesmo sabendo que é mais fácil enxergar as contradições dos outros.

Deus me proteja é uma canção do Chico César.

Ivan Rubens


Chico César e Mestrinho muito bem acompanhados.



Publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 21 de janeiro de 2025

Vieste

uma experiência bacana: leia o texto ouvindo a canção                  
para isso, clique aqui: 



Sabe quando você pensa num assunto meio nebuloso, meio sem clareza, meio sem saber com alguma precisão do que é que você está pensando? pois é… E é meio assim mesmo porque o pensamento pode começar como uma massa disforme que, com o tempo, pode ser esculpido. É como uma argila bruta que vai ganhando uma forma de vaso, de cerâmica, de escultura, de artesanato. Uma porção de argila bruta que vai se transformando em obra de arte por força do trabalho de mãos humanas, de esforço humano, do trabalho que é ao mesmo tempo manual e criativo. São as mãos e a cabeça, as mãos e o coração, as mãos movidas por uma força que vem de dentro, do sentimento e das emoções, da alma ou do espírito, do trabalho humano.


Estava ali um pensamento disforme, um embolado na cabeça, um pensamento que voltava. Daqueles que você se pega pensando naquilo sem perceber que era naquilo que você estava pensando. Estava ali um sentimento disforme, um embolado no peito, um sentimento que voltava. Daqueles que você se pega sentindo aquilo sem perceber que era aquilo que você estava sentindo. Não se dispunha das palavras para nomear. Até que uma canção trouxe as primeiras palavras, foi uma canção que trouxe linguagem e, com linguagem, a argila bruta foi se transformando em uma obra concreta, um embolado no peito foi ganhando palavras da cabeça para os dedos que marcam uma folha de papel. A canção diz assim: 


Vieste na hora exata / Com ares de festa e luas de prata / Vieste com encantos, vieste / Com beijos silvestres colhidos pra mim / Vieste com a natureza / Com as mãos camponesas plantadas em mim / Vieste com a cara e a coragem / Com malas, viagens pra dentro de mim / Meu amor


Podemos pensar que alguém chegou, chegou chegando pra valer. Chegou trazendo festa, encantos, beijos silvestres, chegou com a natureza, com mãos camponesas plantadas em mim.

Vieste, a hora e a tempo / Soltando meus barcos e velas ao vento / Vieste, me dando alento / Me olhando por dentro, velando por mim / Vieste de olhos fechados / Num dia marcado, sagrado pra mim / Vieste com a cara e a coragem / Com malas, viagens pra dentro de mim / Meu amor

Chegou promovendo derivas, tirando do lugar seguro e lançando numa extraordinária aventura de vidas, vindas e vivas. Deriva feito barcos com as velas ao vento. Você chegou definitivamente, velando, olhando. Chegou tocando com sua doce voz baixa suave, de poucas palavras, de fala melodiosa e chiado sotaque amapaense. Mas quero chamar a atenção para a parte mais forte da canção que, não à toa, se repete:

Vieste com a cara e a coragem / Com malas, viagens pra dentro de mim / Meu amor

Mas, e se a chegada não for necessariamente de uma pessoa mas de um sentimento? A chegada de uma pessoa pode trazer um sentimento, neste caso tudo está colocado numa pessoa, está personificado. É o triunfo do sujeito. Contudo, dessubjetivada a canção fica mais bonita: um sentimento chegou. Quem chegou foi o amor. Amor como força viva que toca a gente, amor como noite fria na cama quente. Vieste viagens pra dentro de mim, chegou, ficou. Está.

Vieste é uma canção de Ivan Lins e Vitor Martins.

Ivan Rubens








Publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 24 de dezembro de 2024

#Ivan Lins #Vieste #MPB #Jazz na calçada


Deus me proteja


Francisco César Gonçalves é um artista brasileiro. Nascido no interior da Paraíba, município de Catolé do Rocha em janeiro de 1964, Chico César é um dos grandes nomes da MPB na atualidade. Cantor, compositor, escritor, Chico estudou jornalismo na Universidade Federal da Paraíba onde passou pelo grupo Jaguaribe Carne, fazendo poesia de vanguarda. Uma canção direta, curtinha e muito cantada  durante a pandemia do Covid, Deus me Proteja, diz assim...

Deus me proteja de mim / E da maldade de gente boa / Da bondade da pessoa ruim / Deus me governe e guarde, ilumine e zele assim

Eu posso me fazer algum mal? É comum as pessoas pedirem proteção contra algum mal que possa lhe ocorrer, algum mal que alguém possa lhe fazer ou lhe desejar. A canção do Chico Cesar nos convida a pensar que eu posso fazer mal a mim mesmo, neste caso melhor pedir proteção divina: “Deus me proteja de mim” porque eu não sou totalmente bonzinho, eu não sou totalmente boazinha, tenho uma porção de maldade aqui dentro também.

Gente boa pode fazer mal? Sim, pode. O artista parece estar dizendo que a prática da maldade não é exclusividade de gente má. Então ele pede proteção das mandades praticadas por gente boa. Então, melhor pedir proteção divina: “Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa” porque ninguém é totalmente bonzinho, ninguém é totalmente boazinha, todos têm uma porção de maldade dentro de si também.

Estamos seguindo parte por parte, pedacinho por pedacinho desta primeira frase que, na nossa modesta opinião, é muito densa e muito complexa. E chegamos na parte mais difícil. Gente ruim pode fazer bondades? Meu amigo Silvio parece pensar que não, que gente ruim é ruim e, portanto, quando gente ruim resolve fazer uma bondade trata-se da pior bondade, aquela maldade mascarada de bondade. Então, neste caso, é melhor pedir proteção divina: “Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa, da bondade da pessoa ruim”. 

Podemos pensar na perspectiva da hipocrisia. Dia desses, Silvio e eu ouvimos de um fazendeiro que planta soja, mares de soja, um grande sojeiro anunciando numa audiência pública: “Eu também quero salvar o rio Paraguai”. Salvar o rio paraguai com monocultura de soja? Hipocrisia!!! Ou aquela pessoa muito presente na igreja, seja lá qual igreja for, que se apresenta socialmente temente a deus mas não titubeia em passar rasteira nos outros, que prejudica as pessoas, que faz dos fieis mero rebanho eleitoral, temente a deus que defende golpe de estado, que defende o uso de armas. Arma não serve como peso de papel, não serve para evitar que a porta bata com o vento, não. Arma serve para matar!!! Hipocrisia.


A canção é um convite ao pensamento... Eu posso me fazer algo de ruim, algo maléfico? Sim, posso. Você pode fazer, todos podem fazer algo maléfico e ruim. Neste caso, qualquer maldade não está necessariamente vinculada ao outro, a ação de outrem, ao desejo de outra pessoa. Até pode ser, mas não necessariamente. Eu não estou livre da prática de maldades, deliberadas ou escondidas, claras ou escamoteadas em nossas próprias práticas de proteção inconsciente. Seres humanos não têm nada de transparência. A transparência é pura ilusão, ou mais uma prática de escamoteamento. Afinal, o caminho se faz caminhando...

Caminho se conhece andando / Então vez em quando é bom se perder / Perdido fica perguntando / Vai só procurando / E acha sem saber

Bonito pensar nessa deriva. Deriva que também é uma palavra muito bonita. Do latim, significa ‘mudar o lugar da corrente de um rio’, significa portanto mudar, alterar. Que bom. Gosto que as coisas mudem. Na verdade, eu ficaria em pânico se soubesse que as coisas não mudariam. Claro, tem coisa que preferimos conservar mas tem coisas que preferimos mudar. Mas mudar como? Mudar para onde? Mudar por que? Não sei. E talvez tais respostas signifiquem o final da deriva. Neste caso, prefiro as perguntas, elas disparam movimentos, as perguntas, boas perguntas nos colocam na deriva, na busca, na procura, na caminhada. E nesse movimento, pode ser até que você encontre algo, que ache mesmo sem se dar conta que achou. Mas há um perigo...

Perigo é se encontrar perdido / Deixar sem ter sido / Não olhar, não ver 

Se encontrar perdido é um perigo. Se perder é se encontrar. Se perder de si, tem muita música popular que fala desse processo, dessa busca, desse risco, desse perigo de se perder e se achar, de se perder e de se encontrar. De encontrar dentro de si monstros maléficos, eles nos habitam sim da mesma forma que criaturas de rara beleza também nos habitam. E cada um de nós é esse jogo, esse balanço, esse fluxo de contradições, de forças de vida e forças de morte. E está tudo bem. O grande desafio é não deixar de olhar para tudo isso, sem medo e sem julgamentos. Olhar para tudo isso em si mesmo mesmo sabendo que é muito mais fácil perceber contradições e sobretudo hipocrisias nos outros. Contradições e hipocrisias que estão nos outros e estão também, de alguma forma, em cada um e cada uma de nós. 

Não, Silvio, você não defende o rio Paraguai fazendo monocultura. Muito pelo contrário, você defende o rio Paraguai pisoteando a soja e carregando sua bandeira de lutas. Você é um bom educador popular, você faz diferença (e não estou usando um modismo), mais do que bio-diversidades você produz bio-diferenças. 

Bom mesmo é ter sexto sentido / Sair distraído, espalhar bem-querer

Deus me proteja é uma canção do Chico Cesar. E este texto é um encontro com ele e Silvio Munari.


Ivan Rubens

Um pouquinho por dia


Nasce um bebê. É linda essa cena. O choro da criança aparece como um grito: CHEGUEI!!! Mas, cheguei onde? que mundo é esse?


Coloque-se no lugar do bebê. Você fica cerca de 40 semanas dentro de uma barriga, protegido ou protegida, recebendo tudo que precisa para sobreviver. Até que um dia, você, bebê, sai da barriga e vai para o mundo. Mas que mundo é esse?


Um bebê não fala. Mas, se falasse, o que diria?

O que você, bebê, diria na chegada a este nosso mundo?


Então você deixa aquele mundo de água, passa por um estreito apertadíssimo e é lançado/a para fora. Mãos te tocam, te enrolam em panos, dedo na tua boca, no teu nariz e teus olhos… E tem um choque térmico: se num hospital, certamente uma sala com ar condicionado em baixa temperatura, se numa aldeia na floresta provavelmente calor, muito calor. E seus braços se movem, pernas, mãos se movem, e coisas que você não conhece tocam no seu corpo, toalhas, paninhos, mãos, algodão. E um monte de ruído toca seus ouvidos, cheiros e tal, um mamilo encontra tua boca… o que te resta é sentir, sentir e sentir.


Ou seja, sua primeira relação com este mundo extra_uterino acontece nos cinco sentidos: audição, olfato, tato e, até, visão e paladar. Ouvidos, nariz, pele, e até os olhos e a língua são intensamente estimulados, mas você não tem palavras para dizer o que te acontece, ainda não tem linguagem, consciência, razão, isso virá com o tempo. Pelo menos não esta linguagem e esta razão que mobilizamos ao ler (e escrever) este texto. O que está operando em você, bebê, talvez uma experimentação intensiva. Você está nascendo para uma (muitas) vida(s) neste mundo. A primeira relação com este mundo fora do útero é sensível e, acredito, a sensibilidade pode ser cultivada durante a vida.


Tem uma palavra para dizer da “apreensão pelos sentidos”. Estética deriva da palavra grega ‘aisthesis’, é uma forma de conhecer, de apreender o mundo através dos cinco sentidos. Uma música, exemplo de obra de arte, é uma criação humana que toca nossos ouvidos. Uma tela, exemplo de obra de arte, é uma criação humana que toca nossos olhos. Uma poesia, literatura, dança, ou o cheiro de uma comida, um prato bonito, o barulho da cerveja caindo no copo, o cheiro do vinho, a cor do suco da fruta colhida do pé, tudo isso vai criando um desejo. Estamos falando de um cultivo da sensibilidade que nos torna mais humanos, um pouquinho por dia.


O contrário também pode acontecer, podemos cultivar sementinhas de medo e ódio, um pouquinho por dia. Bem, eu acredito nas belezas como produtoras de sensibilidades e de uma humanidade mais interessante. E também acredito na natureza como produtora de uma humanidade mais interessante… quem nunca se sentiu pequenino diante da exuberância e da força da natureza? Diante da imensidão do mar, diante de um por de sol, diante da chuva intensa, diante da força de um rio, diante da lua cheia, diante de um cânion ou de uma cachoeira? Tudo isso pode nos tornar seres vivos mais interessantes, um pouquinho por dia.


Ivan Rubens

Educador popular


publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 25 de novembro de 2024

Esotérico (ou) Gil Moreno


faça a experiência de ler o texto ouvindo a canção. Clique aqui: 



Numa noite de outubro ao lado da Casa do Artesão na cidade de Macapá, durante o 16º Festival Amapá Jazz, a cantora Vanessa Moreno disse: “Gilberto Gil consegue chegar lá no ápice da beleza e traz pra gente, consegue chegar no ápice da dor e também traz aquela informação pra gente de um jeito possível. Ele abraça a gente…” Vanessa convidou o público presente a cantar Esotérico com ela, mas cantar de um jeito diferente. Segundo a artista, “a gente costuma cantar para o outro. Eu fiz um exercício de cantar essa canção pra mim mesma e percebi que muda tudo”. É como se você estivesse olhando nos seus próprios olhos e cantando, é como se você estivesse se olhando no espelho e cantando, falando e ouvindo cada palavra da canção do Gil.

Vanessa Moreno, paulista de São Bernardo do Campo, é uma artista brasileira. Cantora, compositora, instrumentista, aos 37 anos de idade é considerada uma das grandes revelações da música brasileira da atualidade. Sua expressividade e virtuosismo técnico como cantora são cativantes, sua capacidade de transitar por muitos ritmos da música popular, sua performance, sua percussão vocal e corporal inclusive fazendo som com objetos de uso cotidiano marcam suas apresentações. Topamos o convite de Vanessa. Esotérico, de Gilberto Gil, começa assim:

Não adianta nem me abandonar / Porque mistério sempre há de pintar por aí / Pessoas até muito mais vão lhe amar / Até muito mais difíceis que eu pra você / Que eu, que dois, que dez, que dez milhões / Todos iguais

Não adianta fugir daquilo que afeta, que incomoda, que desestabiliza. Não adianta tergiversar, não adianta escapar, adiar, procrastinar não adianta. A vida é cheia de mistérios, o mundo é um grande mistério, toda pessoa tem seus mistérios e uma dose de opacidade. Vida, mundo, gente, grande e doce mistério. Viver, conviver é estar em contato com esse mistério, circulando, fluindo, sempre em movimento. Então, seguindo a pista da Vanessa Moreno, não adianta se abandonar porque o mistério está aí, presente, ligado, circulando pelo mundo, fluindo feito rio.

Até que nem tanto esotérico assim / Se eu sou algo incompreensível / Meu Deus é mais / Mistério sempre há de pintar por aí

Exotérico tem a ver com exótico, com exterior, com o fora. Do grego eso, "dentro de", esoterismo é, então, o saber propriamente interior, que existe para lá das aparências e que exige muito esforço para atingi-lo. Mistério, incompreensível, humano.

Não adianta nem me abandonar / Nem ficar tão apaixonada, que nada! / Que não sabe nadar / Que morre afogada por mim

Para Gil, essa canção é uma tentativa de trazer para o chão a ideia de mistério divino para pensar o esotérico como atingível para o ser humano, no bojo da complexidade de nosso afeto. A canção nasceu da vontade de falar do esotérico como uma relação amorosa, portanto humana. É divino, é humano, é demasiado humano e pode ser muito mais. Pode ir “além do homem” (Nietzsche), pode “ser mais” (Paulo Freire).

Esotérico, de Gilberto Gil com o charme da Vanessa Moreno ao vento equatorial na margem esquerda do rio Amazonas: Esotérico Gil Moreno.


Ivan Rubens
Educador popular



Esotérico. com Gilberto Gil e Caetano Veloso




Esotérico. Com Vanessa Moreno.




Publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 29 de outubro de 2024

Velas Içadas


leia o texto ouvindo a canção.                
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Velas Içadas é uma canção de Ivan Lins e Victor Martins e está no álbum de 1979 chamado A Noite. Velas Içadas diz assim:

SEU CORAÇÃO É UM BARCO DE VELAS IÇADAS / LONGE DOS MARES, DO TEMPO, DAS LOUCAS MARÉS / SEU CORAÇÃO É UM BARCO DE VELAS IÇADAS / SEM NEVOEIROS, TORMENTAS, SEQUER UM REVÉS

Os artistas usam o barco como metáfora para falar de um coração que nunca se lançou, que ainda não se aventurou nas ondas dos mares de amor. Um coração que nunca se aventurou apesar das ‘velas içadas’, ou seja, apesar de preparado e pronto para navegar, prefere permanecer naquele mesmo lugar, num porto ou num cais, distante das tormentas, longe dos mares, do tempo, das loucas marés. A canção continua:

SEU CORAÇÃO É UM BARCO JAMAIS NAVEGADO / NUNCA MOSTROU-SE POR DENTRO, ABRINDO OS PORÕES / SEU CORAÇÃO É UM BARCO QUE VIVE ANCORADO / NUNCA ARRISCOU-SE AO VENTO, ÀS GRANDES PAIXÕES

O coração é descrito como um barco que, mesmo diante das possibilidades, dos mistérios e das aventuras de imensos mares e oceanos, de águas e marés, de ventos e tempestades, de sóis e de luas, de belezas e calmarias, de silêncios e canto de pássaros, de surpresas e imprevistos, que mesmo diante de inimagináveis possibilidades, escolheu manter-se fechado e ancorado evitando, assim, o risco. Existem perigos nas experiências. Toda experiência carrega algum perigo. Vitor e, sobretudo, Ivan podem estar falando dos perigos e riscos que envolvem as grandes paixões, parecem estar falando daquilo que dá mais sabor à vida. Assim, ‘nunca soltou as amarras, nunca ficou à deriva’ pode dizer de uma vida contida onde uma certa obsessão por segurança e certezas dificultam, para não dizer impedem, experimentações. Falo aqui de experiência não como o acúmulo do tempo cronológico, não como acúmulo de saberes específicos, mas a experiência compreendida como aquilo que se experimenta, como experimentação e, no limite, como viver uma vida em intensidade, na potência, naquilo que a vida pode.

NUNCA SOLTOU AS AMARRAS / NUNCA FICOU À DERIVA / NUNCA SOFREU UM NAUFRÁGIO / NUNCA CRUZOU COM PIRATAS E AVENTUREIROS / NUNCA CUMPRIU O DESTINO DAS EMBARCAÇÕES

“Navegar é preciso, viver não é preciso”. Diante da imensidão do mar, o barco precisa de orientação. Astrolábio, bússola, mapas, cartas náuticas, o GPS, radares e computadores garantem a chegada a um destino. Navegar é, portanto, necessário: marinheiros e aventureiros têm necessidade de navegação, ambicionam o desconhecidos, não conseguem ficar muito tempo em terra. Viver, por sua vez, não tem precisão, viver é incerto, viver é arriscar-se. Sem isso a vida pode parecer oca, a vida parece ficar sem sentido. Inerte, parada, ancorada, a vida parece insossa, inerte, desvitalizada e a consequência é a perda da esperança, opacidade da alma, adoecimento do corpo, enfraquecimento dos sentidos. Abrir mão de olhar, ouvir, cheirar o mundo, de tocar e se deixar tocar pelas belezas do mundo, impermeabilizar a pele para o mundo e suas belezas é tornar a humanidade fraca. É como vestir uma armadura, vestir uma capa para se proteger da chuva, do vento, da alegria-destino das embarcações. E, de tão protegidos, deixamos de viver ao ponto de aceitar qualquer coisa como arte, aceitar qualquer coisa como vida, aceitar qualquer coisa como amor.

Ivan Rubens



Igarapé das mulheres (parte II)

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Osmar Jr é um artista brasileiro. Nortista de Macapá, é cantor, compositor, poeta, na constelação da música popular amapaense. Iniciou seus estudos musicais aos 14 anos de idade. A canção "Igarapé das Mulheres" diz assim:

O tempo leva tudo / O tempo leva a vida / Lá fora as margaridas fazem cor / Eu lembro a alegria / Boiar naquelas águas / E ver as lavadeiras lavando a dor / E lavavam a minha esperança perdida / De crescer lá no igarapé / E lavavam o medo que tinha da vida / E agora o meu medo o que é?

“Igarapé” está no título, "tempo" inicia a canção. Se igarapé é uma espécie de rio, podemos associar rio e tempo. Rio tem fluxo, tempo tem fluxo. Rio passa, tempo passa. Se o tempo passa, a vida passa. É feito um rio: flui. Rio flui, vida flui. Quantas vezes não nos pegamos pensando: "se eu pudesse voltar no tempo, faria diferente". Mas isso não é possível. Então, “o tempo leva tudo, o tempo leva a vida”. O artista fala de um tempo de alegria, boiar naquelas águas, brincar no igarapé ali mesmo onde mulheres lavavam as roupas, onde margaridas fazem cor. Linda a imagem trazida pelo poeta. A canção continua…

A minha nave, um tronco navegava / As estrelas, entre as palafitas / E as lavadeiras / Nas minhas aventuras, Poraquê / Pirarara, Piranha Peixe-Boi, Boto, Igara / E lavavam a minha paixão corrompida / As mulheres do igarapé / As Joanas, Marias, deusas, Margaridas / Lavarão o que ainda vier

O artista continua nos apresentando paisagens: um tronco que navega levando o artista a uma viagem imaginária, estrelas brilhando, palafitas, lavadeiras. Podemos imaginar mulheres, os pés molhados de igarapé, cantando enquanto lavam roupas, panos, toalhas etc. Peixe elétrico, pirararas, piranhas, bichos perigosos e encantados pela poesia. Quem seriam as mulheres que lavam a paixão corrompida?
Joanas, Marias, deusas, Margaridas. Se Margaridas, mulheres. Mulheres-flores.

Osmar fala de uma paixão corrompida que foi lavada. Mas o que seria uma paixão corrompida? paixão corrompida pode ser compreendida como uma paixão contaminada, paixão estragada, subornada. Paixão destruída, paixão que foi maculada por alguma força de repressão, alguma força de negação. Numa perspectiva mais alegre, podemos pensar que a paixão está sendo restaurada. Sobretudo se considerarmos que a paixão foi lavada pelas mulheres do igarapé. Dada a extraordinária das mulheres e das flores, e da água do igarapé (palavra musical), a corrupção realizada na paixão foi lavada e, não bastasse, o artista sabe o risco permanente que a paixão está submetida. A paixão está ameaçada pela corrupção do mundo humano, das forças que corrompem a paixão ontem, hoje e sempre. Há paixões corrompidas que esperam ser lavadas para virar paixão renovada, e, neste processo de estragar a paixão e reapaixonar, podemos usar a palavra reencanto. Cantar e reencantar, com todos os riscos da corrupção humana.

Corromper a paixão pode ser compreendida como estragar uma paixão. Quem nunca? errar e desejar que o tempo volte para seguir por outros caminhos. Mas foi, e o tempo não volta. É como rio que flui da nascente até a foz, a vida flui do nascimento até a morte. Princípio, meio e fim.


Ivan Rubens

Publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 6 de agosto de 2024





Tempo com você

 Tempo com você

(Cláudio Bolão e Ivan Rubens)



Quero te levar pra conhecer

o amanhecer, ver o sol nascer

Mas que dia lindo

É você sorrindo


O vento assanhando teus cabelos

o seu olhar perdido em tom de apelo

Na aurora então, surge uma paixão


Quero é provar o teu sabor

deliciar o puro mel da flor

Onde o dia é mais puro

e o tempo é mais seguro


Vamos nos deliciar nesse prazer

da nascente até o entardecer

Mais um dia de domingo

ver o teu rosto sorrindo

Felicidade é ter tempo com você


Quero te levar pra ver o mundo

quando a vida passa num segundo

chove agora, então

Macapá, Carvão


Vamos nos deliciar nesse prazer

da nascente até o entardecer

Mais um dia de domingo

ver o teu rosto sorrindo

Felicidade é ter tempo com você


Maré cheia

Maré cheia

(Claudio Bolão e Ivan Rubens) 


uma criança pés na areia
olhos para o rio
imenso e misterioso rio
uma criança pés na areia
olhos para o mar
imenso e misterioso mar

Uma criança brincando na areia
pulando as ondas, virando sereia
É maré cheia
Uma criança brincando na areia
pulando as ondas, virando sereia
É maré cheia

Uma criança entrando na mata
colhendo maracujá,
brincadeira, taperabá.
Uma criança entrando na mata
colhendo burití,
brincadeira, uxí, bacurí.

Uma criança, uma meninota,
o tempo passando outra vida que brota
É maricota.
Uma criança, uma meninota,
o tempo passando outra vida que brota
É maricota.

(solo longo)

Uma criança brincando na areia
pulando as ondas, virando sereia
É maré cheia

É maricota

É mar e flora
É maré cheia

Um voo mais bonito

(Claudio Bolão e Ivan Rubens)


Depois de refutar a si próprio pensando no sonho de igualdade, e um canoeiro vencendo a força do majestoso rio Amazonas com seu remo em punho...
Das terras tucujus onde a floresta é diversidade pura, diferença pura em perfeita harmonia
Assim como o açaí e farinha d'água com peixe ou camarão
Assim como o queijo com goiabada que chegam de fora contribuindo com a diferença e a harmonia
Tudo isso que a vida nos oferece de beleza e alegria,
Natureza viva...
em respeito a tudo isso, em respeito a todos e todas nós, um sonho de igualdade em direitos e oportunidades.... Um voo mais bonito



Lá na margem longa, cotovelo de um rio
no encontro de horizontes
no céu puro, uma fonte a me desaguar
Avisto_o revoar
Avisto_o revoar
Há norteador de coragem
quanta certeza dentro desses corações
No voo mais bonito, como alcançar?
Vem nos acordar
Vem nos acordar
no despontar do sol a cada manhã
toda verdade ali, naquela alvorada de passarinhos
Que sejamos gaivotas
sejamos pardais
que sejais curruíras, curió, tanto faz
de pluma branca, mestiça, amarela
nós somos iguais.
Que sejamos gaivotas
sejamos pardais
que sejais curruíras, curió, tanto faz
Cantando, voando, horizontes abertos
nós somos iguais.

(Cláudio Bolão e Ivan Rubens)

Igarapé das mulheres (parte I)


Inicio a primeira parte deste texto com uma afirmação: cada palavra é um mundo! Se você conhece o museu da língua portuguesa na capital paulista, ouviu uma frase que é repetida como um refrão: "penetra surdamente no reino das palavras, penetra surdamente no reino das palavras, no reino das palavras, das palavras"... Trata-se do fragmento de um poema de Carlos Drummond de Andrade:

Penetra surdamente no reino das palavras. / Lá estão os poemas que esperam ser escritos. (…) / Chega mais perto e contempla as palavras. / Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra / e te pergunta, sem interesse pela resposta, / pobre ou terrível, que lhe deres: "Trouxeste a chave?"

Para Drummond, cada pessoa carrega (talvez dentro do coração) a chave para entrar no reino das palavras, lugar onde estão os poemas que ainda não foram escritos. O poeta te convida para chegar mais perto, te convida para contemplar as mil facetas das palavras. São faces secretas, facetas escondidas debaixo de uma face aparentemente neutra. Mas as palavras não são neutras, as palavras não são neutras! Por algum motivo meu inconsciente me coloca neste poema do Drummond com uma outra palavra. No lugar de ‘reino, sempre vem a palavra ‘mundo’. Inconscientemente, ‘mundo’ substitui ‘reino’. Na minha leitura mais íntima fica assim: penetra surdamente no mundo das palavras. Penetra surdamente no mundo das palavras, no mundo das palavras, das palavras... Desatento, aquele estado que o inconsciente (danadinho) se manifesta, troco ‘reino’ por ‘mundo’. Gosto dessa manobra inconsciente. Particularmente, gosto mais de mundos do que de reinos. Reino pressupõe um castelo com uma porta imensa, rodeada de soldados, trancas e chaves. Mundos talvez não tenham portas, nem trancas, nem soldados, nem chaves. Pelo menos os mundos aqui imaginados.

Que bom poder imaginar livremente... imaginar mundos abertos, sem portas nem chaves, nem grades de todo tipo, grades físicas como aquelas que protegem janelas das casas nas cidades, tampouco as grades que limitam nossa capacidade de pensar, grades que estão dentro das cabeças, grades que impedem o corpo de sentir, o coração de sentir, grades não físicas mas, por assim dizer, grades imateriais, grades subjetivas.

Uma palavra muito presente na Amazônia e no Pantanal, tem uma sonoridade adorável: Igarapé. A palavra foi adotada do tupi e significa literalmente "caminho de canoa", dada a junção dos termos ‘ygara’ (canoa) e ‘apé’ (caminho). Lindo, não? Na língua Tupi, igarapé é "caminho da canoa"! Podemos dizer que igarapé é um curso d'água constituído por um braço longo de rio ou canal. Apenas pequenas embarcações, como canoas e pequenos barcos, podem navegar pelas águas de um igarapé devido a sua baixa profundidade e por ser estreito.

Na cidade de Macapá/AP, o Igarapé das Mulheres lança suas águas no rio Amazonas, e recebe influência do rio Amazonas. No próximo artigo você conhecerá a canção ‘Igarapé das Mulheres’. Até lá.

Ivan Rubens


publicado no Jornal Cidade de Rio Claro/SP, edição de 9 de julho de 2024

Mu-dança

 



Quando me sentei para escrever esse texto, pensava no tema da ‘mudança’. Não uma mudança de casa ou de endereço, mas num movimento, algo parecido com uma dança. Foi quando pintou uma canção do Gilberto Gil.

Entre 1989 e 1992, Gil foi vereador na cidade de Salvador/BA. Interessante pensar um artista da potência criativa do Gil cumprindo as tarefas típicas de um vereador numa grande cidade, uma rotina de comissões, sessões plenárias, audiências públicas, parlatórios, rotina de um parlamentar. Um artista da música trabalha com palavras, com a estética das palavras, um parlamentar trabalha com a objetividade (ou obscuridade) das palavras. Ambos têm na palavra sua matéria prima. De 1989, a canção ‘O eterno deus Mu dança’ diz assim:

Sente-se a moçada descontente onde quer que se vá / Sente-se que a coisa já não pode ficar como está / Sente-se a decisão dessa gente em se manifestar / Sente-se o que a massa sente, a massa quer gritar: / “A gente quer mu-dança / O dia da mu-dança / A hora da mu-dança / O gesto da mu-dança”

Gil fala da moçada descontente, de uma massa gritando por mu-dança. A canção continua:

Sente-se – e não é somente aqui, mas em qualquer lugar: / Terras, povos diferentes – outros sonhos pra sonhar / Mesmo e até principalmente onde menos queixas há / Mesmo lá, no inconsciente, alguma coisa está / Clamando por mu-dança / O tempo da mu-dança / O sinal da mu-dança / O ponto da mu-dança

É como se o fermento ainda executasse o seu trabalho de crescer a massa do pão. Terras e povos diferentes querem sonhar outros sonhos, reivindica-se o direito de sonhar por si, sonhar outros sonhos coletivos como fazem muitos povos indígenas. A canção sugere que algo ainda desconhecido se move no subterrâneo das cidades, em setores da sociedade, no inconsciente das pessoas e das comunidades. Note que até aqui Gil escreve ‘mu-dança’.

Quando da composição ainda no século passado, Gil “pensava em Lemúria, uma região pré-Atlântica de onde ter-se-ia originado a raça negra”.

Sente-se! Levante-se! Prepare-se para celebrar / O deus Mu dança! / O eterno deus Mu dança! / Talvez em paz Mu dança! / Talvez com sua lança (...)

Uma canção que celebra a mudança não poderia ser fixa, estática, imóvel. Em Gil, as palavras dançam, o texto dança, ele dá movimento. Desloca um grito por ‘mudança’ para ‘mu-dança’ chegando até ‘Mu dança’. E dá a Mu o status de deus, um deus que dança. Se deus, eterno. Então podemos, com o artista, celebrar a eternidade da mudança. Mudança enquanto condição, mudança desejável, mudança utópica como aquele horizonte que nos faz caminhar. Celebremos a mudança como abertura de horizontes possíveis, livres das amarras do certo/errado. Pelo contrário, aproveitemos as mudanças enquanto andanças, enquanto possibilidades de errar. E errando, nos movimentemos, caminhemos, mudemos, dancemos.

Quando me sentei para escrever esse texto, pensava no tema da ‘mudança’. Ao final desta escrita, sinto que alguma mudança aconteceu. Mudança, mu-dança ou Mu dança? Não sei. Aconteceu.

Ivan Rubens




publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 11 de junho de 2024

Ébrios

 

Que sejamos nós os ébrios

Os que espalham, régios,

O mundano evangelho das esquinas!


Proclamemos, nós, sinais 

Do fígado das horas

E as canções profanas!


Não nos dobremos, nós

À putrefata voz do algoz

Que nos sublima!


Devoremos, sim, a vida

A sina, os dias, os anos

Intrépidos? Profanos!


Que sejamos nós os bêbados

que caminham, trôpegos,

As esquinas mundanas da cidade fria


Beberemos, nós, sinais

Do trânsito acelerado

E dos carros violentos


Só nos dobremos, nós 

À marquise úmida 

Que nos abriga


Devoremos, sim, a vida

A sina, os dias, os anos

Artrópodes? Profanos!


Que sejamos nós os loucos

Os que empurram, poucos,

Carrinhos, papelões, amigos fiéis


Reclamemos, nós, sinais

Do muro alto que separa

E do portão que aprisiona


Só nos dobremos, nós

À beleza da arte

Que nos liberta


Devoremos, sim, a vida

A sina, os dias, os anos

Antropófagos profanos! 



Nuno Moraes e Ivan Rubena

Quero quero


bacana é ler o texto ouvindo a canção baixinho. 
para fazer isso, clique aqui ao lado: 



No final de semana de 17 de maio de 2024, um “quero quero” passou por Macapá. Foi um show, foram vários shows na verdade. Deize Pinheiro, a Pérola Azulada com Zé Miguel, o Jeito Tucujú com Val Milhomem e Joãozinho Gomes, numa verdadeira Farofa Tropical com Cláudio Nucci.

Paulista de Jundiaí, o artista Cláudio Nucci é cantor e compositor. No Rio de Janeiro em 1971, cursou o então segundo grau com Cláudio Infante, Mu Carvalho, Lobão e Zé Renato. Com este último integrou, em 1978, o grupo Boca Livre gravando canções como Toada (parceria com Zé Renato e Juca Filho), Quem Tem a Viola (parceria com Zé Renato, Xico Chaves e Juca Filho) e Sapato Velho (parceria com Mu Carvalho e Paulinho Tapajós). A canção Quero Quero (parceria com Mauro Assumpção) diz assim:

Ai, eu quero, eu quero tanto / Que você me aceite do jeito que eu sou / Muito inibido, recatado e tímido, puro de amor / Ai, eu quero, quero tanto / Que você me aceite do jeito que eu sou / Arrebatado, atirado, rápido, sem pudor

Quem não quer ser aceito? Chegar num lugar desconhecido, começar num trabalho novo, iniciar um curso são situações que nos colocam diante dessa questão. E isso acontece desde cedo: você se lembra do seu primeiro dia de aula? lembra das trocas de colégio, do primeiro dia de aula no ensino médio? da primeira vez que apresentou um trabalho na faculdade ou que falou em público? a ansiedade gerada por momentos deste tipo talvez carregue a expectativa da aceitação: o que irão pensar de mim? gostarão do que eu vou dizer? portanto, ser aceito pode causar certa expectativa e ansiedade. A canção continua…

Sempre nessa vida solta / Fazendo a gente se chegar / Ao encontro natural / Muito bom de se ficar

Os artistas apresentam um encontro natural, desses que você quer ficar, se demora nele, que você vai criando maneiras de adiar o fim. Então podemos pensar num encontro de corpos, um encontro de amor. Um desses encontros raros, raríssimos, onde caminhos se cruzam, onde pessoas se encontram na vida, quando uma pessoa passa por mim, passa por você, onde você passa por ela mas algo de ambos fica. Fica como uma semente colocada em solo fértil, germina, brota e gera outra vida. Um encontro meio óvulo e espermatozoide, um encontro onde ambos saem tão modificados que tornam-se um outro ser.

Ai, eu quero, eu quero tanto / Que você me aceite do jeito que eu sou / Descabelado, malucado, doido / Mas muito integrado nesse nosso amor

É possível fazer performances, malabarismos, gastar dinheiro visando à aceitação. A canção parece nos indicar algo muito simples e aí mesmo pode estar a beleza e a força dessa obra de arte: primeiro aceitação a si mesmo começando pelas próprias fragilidades, aceitando a precariedade humana, e depois indo na direção do outro carregando consigo qualidades e fragilidades, virtudes e ‘defeitos’, acertos e erros. E ao mesmo tempo, na pureza que o amor é capaz de produzir, uma pureza que gera a força necessária para se apresentar sem máscaras, inibido, recatado, tímido, arrebatado, atirado, rápido, sem pudor, descabelado, maluco, doido, se apresentar assim como se é ou como se está naquele momento da vida, uma espécie de colocar-se de peito aberto e de cara limpa e, aceito, integra-se e cuida dessa relação tão preciosa quanto delicada que é o amor. E viver momentos igualmente delicados e raros, quando sua cabeça está repousada no peito da outra pessoa, quando seu ouvido sente o coração do outro batendo tranquilo, aquele momento onde a simples presença viva do outro traz uma sensação maravilhosa de paz e tranquilidade. Muito integrado nesse nosso amor.

Ivan Rubens
19/maio/2024
#farofatropical #queroquero #claudionucci #macapá #bocalivre #mpb


Quero quero, Cláudio Nucci




Jatobá

 (introdução com o som dos jatobás)


O som da cachoeira vindo do Jatobá / Nasci na cordilheira desaguei no Guamá / Tesouro escondido que atrai o olhar / Banzeiro diferente, Araxá, Macapá.

Paisagem, simetria, coração por um fio / Poesia rabiscada, ensaiada num canto do Brasil


Lampejo, gravidade / estou saindo do chão / Vestindo um chapéu / de palha “azul confusão” / Na aba o mistério, tão intensa atração! / Maria que o diga, acordes desta canção.

Ensaio, fim de tarde, bossa, blue, um café / E eu tiro o chapéu, retiro meu chapéu só pr'aquela mulher


É nessa onda carimbó, marabaixo / que eu saio pro mato sem pressa de voltar / Visto o chapéu azul que controla o tempo, / no preciso momento, à sombra do jatobá.


Cláudio Bolão e Ivan Rubens


Falsete da emoção

Falsete de emoção 


Pare na ladeira / descida traiçoeira / Mudança de Estação 

Em raios lancinantes / Manhã tão cintilante / torrente de paixão


Num cofre ali guardado / Um ponto iluminado / E pulsa o coração

Se abro a janela / Solfejo em aquarelas / Falsete da emoção


Se a noite ali está / um poeta a pensar  / Um acorde, um violão

Se o tempo não passar / Que não é de se  estranhar / o poder da criação


Seja do jeito que for / mas que seja uma canção / que toque a alma e dê sabor / que sapeca, o coração

Seja do jeito que for / seja lá o que Deus quiser / que agrade o coração / no peito de uma mulher



Cláudio Bolão e Ivan Rubens


Igarapé de mulheres


As palavras são um mundo, cada palavra é um mundo inteiro ou pode ser um mundo inteiro. Me lembro que no museu da língua portuguesa na capital paulista, uma frase é repetida como um refrão: "penetra surdamente no reino das palavras, penetra surdamente no reino das palavras, no reino das palavras, das palavras"... Trata-se do fragmento de um poema do Carlos Drummond de Andrade, que diz assim:

Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.    (...)
Chega mais perto e contempla as palavras.
Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
"Trouxeste a chave?"

Para Drummond, cada pessoa carrega (talvez dentro do coração) a chave para entrar no reino das palavras, lugar onde estão os poemas ainda não escritos. Ele te convida para chegar mais perto e te convida ainda para contemplar as palavras, afinal, cada palavra tem mil faces. São faces secretas escondidas debaixo de uma face aparentemente neutra. Mas as palavras não são neutras, as palavras não são neutras! Meu inconsciente, por algum motivo, me coloca neste poema do Drummond com uma outra palavra. Meu inconsciente me traz mundo no lugar de reino. Na minha leitura mais íntima: "penetra surdamente no mundo das palavras. Penetra surdamente no mundo das palavras, no mundo das palavras, das palavras"... Desatento, aquele estado que o consciente (danadinho) se manifesta, troco reuni por mundo. Gosto dessa manobra inconsciente. Particularmente, gosto mais de mundos do que de reinos. Reinos pressupõe um castelo com uma porta imensa, rodeada de soldados, trancas e chaves. Mundos talvez não tenham portas, nem trancas, nem soldados, nem chaves. Pelo menos os "mundos" aqui imaginados. Que bom poder imaginar livremente... mundos abertos, sem portas nem chaves, nem grades de todo tipo, grades físicas como aquelas que protegem janelas das casas nas cidades, tampouco as grades que limitam nossa capacidade de pensar, grades que estão dentro das cabeças, grades que impedem o corpo de sentir, o coração de sentir, grades não físicas mas, por assim dizer, grades imateriais, grades subjetivas.

Uma palavra muito presente na amazônia, tem uma sonoridade adorável: Igarapé. Uma palavra musical. A palavra foi adotada do tupi. Significa, literalmente, "caminho de canoa", através da junção dos termos ygara (canoa) e apé (caminho). Lindo, não? Na língua Tupi, igarapé é "caminho da canoa"! 
Podemos dizer que igarapé é um curso d'água amazônico (de primeira, segunda ou terceira ordem,) constituído por um braço longo de rio ou canal. Existem em grande número na Bacia amazônica. Caracterizam-se pela pouca profundidade e por correrem quase no interior da mata. Apenas pequenas embarcações, como canoas e pequenos barcos, podem navegar pelas águas de um igarapé devido a sua baixa profundidade e por ser estreito.

Osmar Jr é um artista brasileiro. Nortista de Macapá (1963), é cantor, compositor, poeta, importante estrela no céu da música amapaense. Iniciou seus estudos musicais aos 14 anos de idade. É do Osmar Jr a canção "Igarapé das Mulheres". A canção diz assim:

O tempo leva tudo / O tempo leva a vida / Lá fora as margaridas fazem cor / Eu lembro a alegria / Boiar naquelas águas / E ver as lavadeiras lavando a dor / E lavavam a minha esperança perdida / De crescer lá no igarapé / E lavavam o medo que tinha da vida / E agora o meu medo o que é?

Igarapé está no título da canção, e a letra começa com a palavra-mundo "tempo". Um afeto inicial produzido pela obra de arte, então, associa Igarapé e tempo. Se igarapé é um curso d'água, é (por assim dizer) um rio, podemos associar o rio ao tempo. O rio passa, o tempo passa. O rio tem fluxo, o tempo tem fluxo. Uma boa imagem para nos ajudar a pensar é a ampulheta, a areia que, passando pelo funil da ampulheta, cai do recipiente superior para o inferior. A areia da ampulheta não volta, a água do rio não volta, o tempo não volta. O tempo passa e, com ele, a vida passa. É feito um rio: flui. O rio flui, a vida flui. Quantas vezes não nos pegamos pensando: "se eu pudesse voltar no tempo, faria diferente". mas isso não é possível.

Então, o tempo leva tudo, o tempo leva a vida. O artista fala de um tempo de alegria quando era possível brincar no igarapé, de boiar nas águas, ali mesmo onde as lavadeiras realizavam seu trabalho se lavar roupas, ali mesmo onde as margaridas fazem flor. Linda a imagem trazida pelo poeta, linda.

A canção continua:

A minha nave, um tronco navegava / As estrelas, entre as palafitas / E as lavadeiras / Nas minhas aventuras, Poraquê / Pirarara, Piranha Peixe-Boi, Boto, Igara / E lavavam a minha paixão corrompida / As mulheres do igarapé / As Joanas, Marias, deusas, Margaridas / Lavarão o que ainda vier

O artista continua nos apresentando paisagens, belas paisagens: um tronco que navega provavelmente boiando sobre as águas, com a capacidade de transportar o artista numa viagem imaginária, uma noite de céu estrelado cujo brilho pode ser observado entre as palafitas, as lavadeiras. Podemos imaginar mulheres com os pés molhados de igarapé, cantam lindamente enquanto lavam suas roupas, seus panos, suas toalhas, suas redes etc. E os bichos, seres encantados pela maravilha da obra de arte:peixe elétrico, Pirararas, Piranhas, peixes perigosos mas também bichos encantados. Tudo isso lava a paixão corrompida, sobretudo as mulheres do igarapé. Aqui vale um olhar mais cuidadoso:

- Quem são as mulheres que lavam a paixão corrompida?
são Joanas, são Marias, deusas, são Margaridas. Olha ela aparecendo novamente: a margarida da primeira frase aparece com letra minúscula, sinalizando a planta, a flor, uma margarida em flor, colorida. Se me permitem imaginar, uma margarida amarela cor de sol, margaridas amarelas e uma margarida em Sol, linda, exuberante, uma paisagem florida como um dia claro, quente, um dia de sol.

- O que seria uma 'paixão corrompida'?
Osmar fala de uma paixão lavada. Mas ele não para por aí, ela qualifica essa paixão: uma paixão corrompida que foi lavada. Talvez as mulheres do igarapé tenham lavado a paixão, tenham lhe tirado a corrupção. Uma paixão corrompida foi lavada. Mas o que seria uma paixão corrompida? paixão corrompida pode ser compreendida como uma paixão contaminada, uma paixão pervertida, uma paixão viciada. Uma paixão estragada, uma paixão subornada. Ou seja, podemos compreender que a paixão destruída. Destruída, estragada, contaminada, pervertida, viciada... uma paixão que perdeu suas características originais, que foi maculada por alguma força de repressão, de negação, por algum afecção triste. Olhando numa perspectiva positiva, uma perspectiva da alegria, podemos pensar que a paixão está sendo restaurada porque lavada. Sobretudo se considerarmos que não foi lavada de qualquer jeito, pelo contrário, foi lavada por mulheres extraordinárias: as mulheres do igarapé. Dada a extraordinária das mulheres e das flores (amareladas de sol), e da água do igarapé (palavra musical), a corrupção realizada na paixão foi lavada e, não bastasse, o artista sabe o risco permanente que a paixão está submetida. A paixão está ameaçada pela corrupção do mundo povoado pelo humano, das forças que corrompem a paixão ontem, hoje e sempre. Conheço paixões corrompidas que teimam em manter-se viva à espera da delicadeza das mulheres do igarapé em lavá-la e, lavando, a paixão se restabelece. Para virar paixão renovada, e, neste processo de estragar a paixão e reapaixonar, como estamos falando de uma canção podemos usar a palavra reencanto, ou na ação de reencantar. Cantar e reencantar, apaixonar e amar. Com todos os riscos de ter corrompidos tais sentimentos. Cantar e reencantar, apaixonar e amar.

Corromper a paixão pode ser compreendida como estragar uma paixão. Quem nunca estragou uma paixão? quem nunca? errar, cometer erros e desejar que o tempo voltasse para que o erro não fosse cometido. Mas foi, e o tempo não volta. É como rio, vai da nascente até a foz, a vida vai do nascimento até a morte. A vida tem princípio, meio e fim. Isso é inexorável. Mas no percurso da vida, estragar paixões é péssimo, lamentável. Quem não erra? mas a vida nos dá sempre uma nova chance em quem está atento ao seu próprio movimento, se esforça muito para não cometer os mesmos erros. E tal processo, tal movimento nos torna melhores amantes, e nesta passagem da paixão para o amor, aprendemos a amar mais verdadeiramente. Aprendemos que o amor é bom, que se entregar é bom, que confiar é muito bom, que viver uma vida de amor é algo maravilhoso, é fazer a vida ser vivida na intensidade. É lutar todos os dias e noites contra a corrupção, é se esforçar cotidianamente para que o amor valha a pena. 
A canção é clara com a luz do sol, o amor é quente como a luz do sol.

Ivan Rubens