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Olhado Belém

para uma experiência mais interessante, leia o texto ouvindo a canção

clique aqui: 


Uma canoa, um peconheiro tirando açaí, uma paisagem vista do barco no trajeto Santarém (PA) - Santana/Macapá (AP). Vídeo de Maria Pacheco.



Nilson Chaves é um artista brasileiro. Amazônida de Belém, é instrumentista, cantor e compositor. Em sua voz suave e marcante, conheci "Sabor Açaí", "Olho de Boto", "Não Vou Sair", canções que apresentam uma perspectiva da Amazônia. Segundo Chaves, quando o paulista Celso Viáfora esteve em Belém para um show de ambos com Vital Lima, seu primeiro contato com a Amazônia inspirou a canção “Olhando Belém”. Ele se coloca na letra, dizendo assim:


O sol da manhã rasga o céu da Amazônia / Eu olho Belém da janela do hotel / As aves que passam fazendo uma zona / Mostrando pra mim que a Amazônia sou eu / E tudo é muito lindo / É branco, é negro, é índio…


Se imagine num quarto de hotel olhando o amanhecer em Belém. O Sol raiando no horizonte, a passarada fazendo algazarra, os rios, as ilhas, as baías ganhando as cores da manhã. Viáfora nos apresenta uma cenário muito lindo: “É branco, é negro, é índio”.


No Rio Tietê mora a minha verdade / Sou caipira, sede urbana dos matos / Um caipora que nasceu na cidade / Um Curupira de gravata e sapato / Sem nome e sem dinheiro / Sou mais um brasileiro…


Celso Viáfora é paulistano. Ele se denomina “caipira com sede urbana dos matos”, caipora, “um Curupira de gravata e sapato”. Me identifico muito com este trecho da canção, exceto pela gravata e pelo sapato. E penso sobre a verdade: existe uma verdade? Se sim, onde mora a verdade? Onde mora a minha verdade? Onde mora a tua verdade? Gosto mesmo é de pensar que a verdade, seja ela qual for, mora num rio. A verdade limitada pelas margens, a verdade em fluxo que vai das nascentes até a foz. A verdade que erode e sedimenta, a verdade que arrasta, carrega, movimenta.


Olhando Belém enquanto uma canoa desce o rio / E o curumim assiste da canoa um Boeing riscando o vazio / Eu posso acreditar que ainda dá pra gente viver numa boa / Os rios da minha aldeia são maiores que os de Fernando Pessoa


Entre comigo na cena: uma pequena canoa descendo um rio imenso, dentro da canoa um curumim olhando para o alto, olhando para um grande avião riscando do céu azul. O que passaria na cabeça desta criança? O que pensaria o curumim? Olhando da janela do avião, o que tu pensarias se visse lá do alto uma canoa e um curumim singrando o rio?




Em ‘O Guardador de Rebanhos’, Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) fala do rio Tejo, e diz que os rios da sua aldeia são maiores. Certamente não fala da dimensão física mas de sua singularidade: são maiores por serem únicos. São únicos porque carregam um tanto do Caeiro e do Pessoa. 


Molhando os meus olhos de verde e floresta / Sentindo na pele o que disse o poeta / Eu olho o futuro e pergunto pra insônia / Será que o Brasil nunca viu a Amazônia? / E vou dormir com isso / Será que é tão difícil?


É desta Amazônia que o artista está falando: uma Amazônia produtora de sentidos, de emoções, uma Amazônia belíssima que, ao tocar o artista, se faz poesia. 


E o sol da manhã rasga o céu da Amazônia…


Olhando Belém é uma canção de Celso Viáfora lindamente interpretada por Nilson Chaves. Aproveite para ouvir “Coração Sonhador”, outra belíssima canção de Nilson Chaves.


Ivan Rubens


Publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 04 de agosto de 2026.



 

Fotos de Maria Pacheco.



Olhando Belém com Nilson Chaves


Com Celso Viáfora e Nilson Chaves

vídeos de Nilson Chaves e Celso Viáfora disponíveis no youtube.



Na COP30, em Belém


Angelina e Ana Caroline são jovens amazônidas. Ambas estudantes na Escola Família Agroextrativista do Maracá, interior do Amapá. A Escola Família está numa terra tradicional, território de cultura extrativista na floresta como o açaí e a castanha. São pessoas que vivem na floresta. Para viver na floresta é preciso que exista floresta. Sem a floresta não haverá castanhais de onde extraem a deliciosa castanha. Escola família é uma iniciativa comunitária cuja escolarização está vinculada ao território.

Aos 17 anos de idade, Angelina e Ana Caroline cursam a 2a série do ensino médio. Angelina, Carol e toda escola família estão atentas ao tema das mudanças climáticas e seus impactos aqui na amazônia amapaense. Ambas participaram da COP30 na capital do Pará. Corajosas, enfrentaram 27 horas num navio de Macapá a Belém e se lançaram na experiência.

Para Angelina, participar da COP foi uma experiência única. Não apenas pela programação, pelos espaços onde a cop aconteceu mas também pelo movimento do corpo no espaço: sair do próprio território e acessar outros territórios. Belém estava cheia de gente, brasileiros e brasileiras de origens, sotaques, culturas diferentes. Belém estava cheia de estrangeiros e estrangeiras, gente de países, hábitos, costumes diferentes. E indígenas: os povos indígenas ocuparam a cidade de Belém e a COP. Coloridas, coloridos, exibindo sua beleza, seus modos de vida, seus idiomas, corpos que falavam de territórios e de Brasis singulares.

Para Caroline, representar a escola é muito sério. Não se trata meramente de postar fotos nas redes sociais, representatividade para ela é muito mais do que isso: "é falar pelas pessoas que ficaram na escola, é apresentar quem somos, nosso território, nosso modo de vida, nossa cor, é apresentar nosso povo para outros povos". A COP foi um momento de discutir as mudanças climáticas, de ocupar espaços, de colocar o povo impactado pelas MCs no centro da foto, dentro das discussões. Os povos indígenas, os povos ribeirinhos, quilombolas, extrativistas, seringueiros, a amazônia indígena e a amazônia negra, a amazônia urbana e não urbana, essa gente toda que, à sua maneira, habita a amazônia, vive na amazônia, vive com a amazônia.

Mesmo não estando nos espaços de decisão como a Zona Azul entre chefes de estado, diplomatas, grandes empresários e lobistas nos hotéis de luxo etc, de um modo geral nosso povo ocupou Belém e, com seus corpos pintados, com seu jeito de ser, ocupou também a cop. As jovens Carol e Angelina habitaram por 11 dias a cidade de Belém, entraram em contato com a história, com a paisagem. Para quem é nascido e criado no interior do Amapá, uma cidade como Belém á um mundo a ser conhecido, encontrado, contemplado... A basílica de Nossa Senhora de Nazaré e as obras de arte no altar mór, a visita guiada no Teatro da Paz, o carimbó, a música. Corajosas, colocaram seus corpos na cidade e se deixaram atravessar pela experiência. Estação das Docas, Ver o Peso, Mangal das Garças, forte do Presépio, feira do açaí, museu das amazônias, Cúpula dos Povos, Porongaço, Caminhada global pelo clima etc, etc, etc... Voltam para a escola modificadas.

... POIS QUANDO EU CHEGO NO PARÁ ME SINTO BEM, O TEMPO VOA... talvez o tempo dê a Carol e Angelina as palavras para dizer dessa experiência.


Ivan Rubens, Angelina e Ana Caroline. Escrito no navio entre Belém e Macapá.

publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 25 de novembro de 2025




Voando pro Pará. Joelma

Como disse Carol, "faltou um Re X Pá no estádio". 


Mundos no mundo



Existem mundos no mundo! essa ideia está no pensamento indígena, quilombola, na filosofia e na arte. Caetano Veloso diz que os livros "podem lançar mundos no mundo". Você pode estar pensando que é  'viagem'. Viajar é bom demais. A viagem, os encontros com lugares, com pessoas, com modos de vida. Seria uma monotonia insuportável se fosse tudo idêntico.

Escrevo este texto contornando a ilha de Marajó. Parti de Belém do Pará às 16h da sexta feira para chegar a Macapá/Amapá 18h do sábado. Contornamos o arquipélago constituído dos sedimentos carreados pelo Amazonas desde suas nascentes mais distantes na Cordilheira dos Andes. Então temos o mundo e, dentro dele, tantos mundos. Belém é um mundo, Macapá é um mundo, em alguma medida um mundo urbano assim como Rio Claro. O arquipélago do Marajó é um mundo, o rio Amazonas é um mundo que a travessia Belém - Macapá vai nos revelando aos poucos.

A última vez que vi asfalto foi nas ruas do porto em Belém. Agora só vejo água. E as pessoas circulam pela água: são canoas e rabetas fazendo pequenos percursos, barcos pequenos e médios circulando. Estou num barco grandes que navega trajetos mais longos. E navios imensos que provavelmente atravessam o oceano Atlântico. O asfalto inerte faz piso para o trânsito. Na água, a vida transita sobre, a vida circula dentro, a vida habita as margens. A paisagem é exuberante, muita árvore, muito açaí, muita ave, muito peixe etc... Muita riqueza.

Taí outro mundo: aquele que imagino olhando do navio. Aqui na minha cabeça vou criando um mundo com a imaginação. É um jeito de viver a alegria infantil de imaginar e criar mundos. Minha infância está vivíssima aqui; Essa natureza e essa cultura, essas paisagens fecundam infância com tamanha intensidade que escrevo. Escrever é um jeito de lidar, um jeito de elaborar essa infância criadora de mundos que nos habita. Criançar é um jeito de viajar.

Dentro do navio é outro mundo. O navio carrega material de construção, carros, uma frota de 5 Unidades de Resgate novas para o Corpo de Bombeiros, comidas, sacarias, caixas e mais caixas de laranja, de tomate, de goiaba etc. Trata-se de um navio de carga e passageiros. Quanto às pessoas, parte delas trabalha no navio, parte delas estão nas redes sentindo o vento que sopra (é o meu caso), parte delas fica no andar climatizado. Parte fica no bar bebendo e ouvindo música alta. "Cuidado com o metanol", grita um homem ao amigo que abre uma lata de cerveja. São 9h50.

Nas águas tem criança remando canoa, meninos e meninas, mulheres remando canoas, tem casas na beira dos rios entre açaizais, árvores inclusive frutíferas. Não vejo supermercado, shopping center, não vejo as farmácias que tomaram as esquinas das cidades, não vejo pressa. Aqui o tempo é do rio: cerca de 26 horas da Belém a Macapá. Para passar o tempo, tecnologias: tem gente que conversa, tem gente que lê livro, tem criança brincando com a boneca, criança e mãe brincando na rede. E tem gente que compra um pacote de dados no navio para acessar a internet. São Mundos... mundos no mundo.

Ivan Rubens

Publicado no Jornal Cidade de Rio Claro de 28 de outubro de 2025.