Nilson Chaves é um artista brasileiro. Amazônida de Belém, é instrumentista, cantor e compositor. Em sua voz suave e marcante, conheci "Sabor Açaí", "Olho de Boto", "Não Vou Sair", canções que apresentam uma perspectiva da Amazônia. Segundo Chaves, quando o paulista Celso Viáfora esteve em Belém para um show de ambos com Vital Lima, seu primeiro contato com a Amazônia inspirou a canção “Olhando Belém”. Ele se coloca na letra, dizendo assim:
O sol da manhã rasga o céu da Amazônia / Eu olho Belém da janela do hotel / As aves que passam fazendo uma zona / Mostrando pra mim que a Amazônia sou eu / E tudo é muito lindo / É branco, é negro, é índio…
Se imagine num quarto de hotel olhando o amanhecer em Belém. O Sol raiando no horizonte, a passarada fazendo algazarra, os rios, as ilhas, as baías ganhando as cores da manhã. Viáfora nos apresenta uma cenário muito lindo: “É branco, é negro, é índio”.
No Rio Tietê mora a minha verdade / Sou caipira, sede urbana dos matos / Um caipora que nasceu na cidade / Um Curupira de gravata e sapato / Sem nome e sem dinheiro / Sou mais um brasileiro…
Celso Viáfora é paulistano. Ele se denomina “caipira com sede urbana dos matos”, caipora, “um Curupira de gravata e sapato”. Me identifico muito com este trecho da canção, exceto pela gravata e pelo sapato. E penso sobre a verdade: existe uma verdade? Se sim, onde mora a verdade? Onde mora a minha verdade? Onde mora a tua verdade? Gosto mesmo é de pensar que a verdade, seja ela qual for, mora num rio. A verdade limitada pelas margens, a verdade em fluxo que vai das nascentes até a foz. A verdade que erode e sedimenta, a verdade que arrasta, carrega, movimenta.
Olhando Belém enquanto uma canoa desce o rio / E o curumim assiste da canoa um Boeing riscando o vazio / Eu posso acreditar que ainda dá pra gente viver numa boa / Os rios da minha aldeia são maiores que os de Fernando Pessoa
Entre comigo na cena: uma pequena canoa descendo um rio imenso, dentro da canoa um curumim olhando para o alto, olhando para um grande avião riscando do céu azul. O que passaria na cabeça desta criança? O que pensaria o curumim? Olhando da janela do avião, o que tu pensarias se visse lá do alto uma canoa e um curumim singrando o rio?
Em ‘O Guardador de Rebanhos’, Alberto Caeiro (Fernando Pessoa) fala do rio Tejo, e diz que os rios da sua aldeia são maiores. Certamente não fala da dimensão física mas de sua singularidade: são maiores por serem únicos. São únicos porque carregam um tanto do Caeiro e do Pessoa.
Molhando os meus olhos de verde e floresta / Sentindo na pele o que disse o poeta / Eu olho o futuro e pergunto pra insônia / Será que o Brasil nunca viu a Amazônia? / E vou dormir com isso / Será que é tão difícil?
É desta Amazônia que o artista está falando: uma Amazônia produtora de sentidos, de emoções, uma Amazônia belíssima que, ao tocar o artista, se faz poesia.
E o sol da manhã rasga o céu da Amazônia…
Olhando Belém é uma canção de Celso Viáfora lindamente interpretada por Nilson Chaves. Aproveite para ouvir “Coração Sonhador”, outra belíssima canção de Nilson Chaves.
Ivan Rubens
Publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 04 de agosto de 2026.


