Viva Lula da Silva


Tem uma canção do Gilberto Gil que diz assim: "Aparece a cada cem anos um mestre da canção num país / e a cada vinte e cinco um aprendiz". Para Gil, João Gilberto é um grande mestre da canção brasileira, desses que aparecem a cada século.

Escrevo meus textos para o JC com antecedência. Escrever é uma prática quase terapêutica, é uma maneira de elaborar as minhas andarilhagens. Contudo, o extraordinário domingo 25/outubro estabeleceu outra rotina.

Luis Inácio da Silva nasceu em Garanhuns/PE em 1945, migrou ainda criança para SP na carroceria de um caminhão 'pau de arara'. Venceu a fome, estudou, trabalhou, foi metalúrgico e sindicalista. Liderou os maiores movimentos grevistas deste país, enfrentou a ditadura militar, fundou o Partido dos Trabalhadores. Foi deputado federal constituinte, disputou e perdeu três eleições presidenciais, venceu duas, fez sua sucessora Dilma Roussef. Agora Lula é tetra!

O povo brasileiro decidiu pela continuidade e ampliação das políticas públicas criadas e executadas por Lula. Políticas de combate à fome e à miséria, políticas de distribuição de renda, de geração de emprego, de habitação para o povo. Continuidade do PAC, dos investimentos no SUS, do combate ao desmatamento da Amazônia e a proteção dos povos tradicionais.

O povo brasileiro decidiu pela inclusão do pobre na economia, por isenção de impostos para quem ganha pouco e taxação dos milionários. Decidiu por mais tempo livre para trabalhadores/as com a escala 5x2, isonomia salarial para homens e mulheres nas mesmas funções. Decidiu por um país soberano, mais UPA, SAMU e Farmácia Popular, mais Gás do Povo, Luz para Todos, optou pela Nova Indústria Brasil, estímulos à Transição Energética, políticas de Regularização Fundiária etc, etc, etc... Aqui na Amazônia posso dizer que a vida do povo é melhor com essas políticas, elas são reais. O Fundo Amazônia é real.

No segundo turno, a juventude se levantou em defesa da educação pública superior, da democracia e da soberania, acendendo a chama da luta em adultos e idosos, homens e mulheres. O povo ocupou o espaço público deste país com entusiasmo e alegria. A alegria é um afeto político muito forte.

Lula está no panteão das maiores lideranças políticas mundiais de todos os tempos, Lula os encara de frente. Gigante, respeita o processo eleitoral encarando, pela segunda vez, uma liderança miliciana. Enquanto o bolsonarismo rebaixa a política, Lula apresenta propostas, defende o povo e a soberania nacional. Lula é a vitória da esperança...

Re-eleito, o presidente afirmou que vai trabalhar pela regulação das empresas que dominam a internet, empresas cujos donos escolhem o que chega aí na sua tela, empresas privadas que colonizam esse território chamado internet. De minha parte, espero que o governo Lula enfrente essa gente, enfrente as BETs e tribute os mais ricos. O presidente afirmou que vai trazer o povo mais perto das decisões e vai ocupar as redes sociais. Ele sabe que é presidente do Brasil, de todas as gentes. Sabe também que o PL continuará protegendo o pai preso, o filho fugitivo e tentando varrer para debaixo do tapete as investigações em andamento. Sabe o dna golpista dessa gente que não respeita a decisão das urnas. E a decisão das urnas é Lula presidente.

Como diz o Gil, a cada cem anos aparece um gigante. Viva Luis Inácio Lula da Silva.

Ivan Rubens

Último dia de aula


Aconteceu numa escola situada no interior da amazônia. Numa escola que recebe adolescentes e jovens oriundos de áreas ribeirinhas, uma gente linda que mora na beira de afluentes do imenso rio Amazonas.

O modo de vida dessa gente ribeirinha está adaptado às condições impostas pela natureza. Vivem da pesca, vivem da coleta dos produtos da floresta, vivem da plantação para subsistência e para comercialização, da criação de animais de pequeno porte e outras formas de economia. Na floresta não há miséria porque a floresta é muito generosa. Perceba que não estou falando dessa economia cujos índices aparecem nos telejornais noturnos, estou falando de uma outra economia.

Nesta escola tem um professor muito curioso com as especificidades do território, dos alunos, alunas e seus modos de vida. Um professor urbano, sudestino, curioso com a Amazônia, trabalhando numa escola comunitária que adota a Pedagogia da Alternância. Pedagogia da Alternância é tempo escolar e tempo comunidade, 15 dias na escola e 15 dias na comunidade. De outro lado, adolescentes e jovens curiosos com esse ser estranho, estrangeiro, esquisito, que fala diferente, que pouco conhece das coisas desta Amazônia mas que, ainda assim, é um professor.

O professor estranho também estranha muita coisa que vê, que escuta, que observa mas, curioso, faz do estranhamento o alimento potente para a relação com os alunos e alunas. Essa diferença é o tempero dos encontros na escola. Um dia esse professor me perguntou: quem ensina quem aqui? Muito interessante a pergunta. Em tese, um professor ensina e os alunos/as aprendem. Mas o conhecimento não está no professor, o conhecimento está no mundo, está na vida, está nos modos de vida, está na natureza, está nos livros e nas bibliotecas também é verdade. Eu provoquei esse professor sudestino recém chegado a pensar que o conhecimento está na partilha e a educação acontece no encontro. Temos conversado muito a respeito disso.

O ano letivo avança... A escola adota um calendário sócio ambiental e climático. As aulas começam bem no início de janeiro e já estão encerrando neste mês de outubro. O acesso à escola para os meninos e meninas ribeirinhos é pelo rio, chegam em catraios e voadeiras enfrentando muita água, enfrentando a fúria da maresia e das marés. Estamos no período seco, chove pouco, igarapés secam muito, a nevagação fica prejudicada. Última semana de aula para as turmas do 6º ano do fundamental até a 1ª série do ensino médio e fizemos lindas cartas de despedida, pinturas coloridas e uma festa das cores. Muita dança, muita alegria, muitos corpos vivos comemorando a convivência. Talvez nos vejamos novamente em janeiro, torço muito que sim. Afinal, já bate aquela saudade do professor sudestino que só o é no encontro com os e as estudantes. Sem os meninos e as meninas, não há professor. Sem as meninas e os meninos, há um prédio de escola vazio. Um prédio de escola é apenas um prédio de escola. Escola é outra coisa...

Festa das cores e muita alegria no último dia de aula.