Último dia de aula


Aconteceu numa escola situada no interior da amazônia. Numa escola que recebe adolescentes e jovens oriundos de áreas ribeirinhas, uma gente linda que mora na beira de afluentes do imenso rio Amazonas.

O modo de vida dessa gente ribeirinha está adaptado às condições impostas pela natureza. Vivem da pesca, vivem da coleta dos produtos da floresta, vivem da plantação para subsistência e para comercialização, da criação de animais de pequeno porte e outras formas de economia. Na floresta não há miséria porque a floresta é muito generosa. Perceba que não estou falando dessa economia cujos índices aparecem nos telejornais noturnos, estou falando de uma outra economia.

Nesta escola tem um professor muito curioso com as especificidades do território, dos alunos, alunas e seus modos de vida. Um professor urbano, sudestino, curioso com a Amazônia, trabalhando numa escola comunitária que adota a Pedagogia da Alternância. Pedagogia da Alternância é tempo escolar e tempo comunidade, 15 dias na escola e 15 dias na comunidade. De outro lado, adolescentes e jovens curiosos com esse ser estranho, estrangeiro, esquisito, que fala diferente, que pouco conhece das coisas desta Amazônia mas que, ainda assim, é um professor.

O professor estranho também estranha muita coisa que vê, que escuta, que observa mas, curioso, faz do estranhamento o alimento potente para a relação com os alunos e alunas. Essa diferença é o tempero dos encontros na escola. Um dia esse professor me perguntou: quem ensina quem aqui? Muito interessante a pergunta. Em tese, um professor ensina e os alunos/as aprendem. Mas o conhecimento não está no professor, o conhecimento está no mundo, está na vida, está nos modos de vida, está na natureza, está nos livros e nas bibliotecas também é verdade. Eu provoquei esse professor sudestino recém chegado a pensar que o conhecimento está na partilha e a educação acontece no encontro. Temos conversado muito a respeito disso.

O ano letivo avança... A escola adota um calendário sócio ambiental e climático. As aulas começam bem no início de janeiro e já estão encerrando neste mês de outubro. O acesso à escola para os meninos e meninas ribeirinhos é pelo rio, chegam em catraios e voadeiras enfrentando muita água, enfrentando a fúria da maresia e das marés. Estamos no período seco, chove pouco, igarapés secam muito, a nevagação fica prejudicada. Última semana de aula para as turmas do 6º ano do fundamental até a 1ª série do ensino médio e fizemos lindas cartas de despedida, pinturas coloridas e uma festa das cores. Muita dança, muita alegria, muitos corpos vivos comemorando a convivência. Talvez nos vejamos novamente em janeiro, torço muito que sim. Afinal, já bate aquela saudade do professor sudestino que só o é no encontro com os e as estudantes. Sem os meninos e as meninas, não há professor. Sem as meninas e os meninos, há um prédio de escola vazio. Um prédio de escola é apenas um prédio de escola. Escola é outra coisa...

Festa das cores e muita alegria no último dia de aula.

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