Deus me proteja


Francisco César Gonçalves é um artista brasileiro. Nascido no interior da Paraíba, município de Catolé do Rocha em janeiro de 1964, Chico César é um dos grandes nomes da MPB na atualidade. Cantor, compositor, escritor, Chico estudou jornalismo na Universidade Federal da Paraíba onde passou pelo grupo Jaguaribe Carne, fazendo poesia de vanguarda. Uma canção direta, curtinha e muito cantada  durante a pandemia do Covid, Deus me Proteja, diz assim...

Deus me proteja de mim / E da maldade de gente boa / Da bondade da pessoa ruim / Deus me governe e guarde, ilumine e zele assim

Eu posso me fazer algum mal? É comum as pessoas pedirem proteção contra algum mal que possa lhe ocorrer, algum mal que alguém possa lhe fazer ou lhe desejar. A canção do Chico Cesar nos convida a pensar que eu posso fazer mal a mim mesmo, neste caso melhor pedir proteção divina: “Deus me proteja de mim” porque eu não sou totalmente bonzinho, eu não sou totalmente boazinha, tenho uma porção de maldade aqui dentro também.

Gente boa pode fazer mal? Sim, pode. O artista parece estar dizendo que a prática da maldade não é exclusividade de gente má. Então ele pede proteção das mandades praticadas por gente boa. Então, melhor pedir proteção divina: “Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa” porque ninguém é totalmente bonzinho, ninguém é totalmente boazinha, todos têm uma porção de maldade dentro de si também.

Estamos seguindo parte por parte, pedacinho por pedacinho desta primeira frase que, na nossa modesta opinião, é muito densa e muito complexa. E chegamos na parte mais difícil. Gente ruim pode fazer bondades? Meu amigo Silvio parece pensar que não, que gente ruim é ruim e, portanto, quando gente ruim resolve fazer uma bondade trata-se da pior bondade, aquela maldade mascarada de bondade. Então, neste caso, é melhor pedir proteção divina: “Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa, da bondade da pessoa ruim”. 

Podemos pensar na perspectiva da hipocrisia. Dia desses, Silvio e eu ouvimos de um fazendeiro que planta soja, mares de soja, um grande sojeiro anunciando numa audiência pública: “Eu também quero salvar o rio Paraguai”. Salvar o rio paraguai com monocultura de soja? Hipocrisia!!! Ou aquela pessoa muito presente na igreja, seja lá qual igreja for, que se apresenta socialmente temente a deus mas não titubeia em passar rasteira nos outros, que prejudica as pessoas, que faz dos fieis mero rebanho eleitoral, temente a deus que defende golpe de estado, que defende o uso de armas. Arma não serve como peso de papel, não serve para evitar que a porta bata com o vento, não. Arma serve para matar!!! Hipocrisia.


A canção é um convite ao pensamento... Eu posso me fazer algo de ruim, algo maléfico? Sim, posso. Você pode fazer, todos podem fazer algo maléfico e ruim. Neste caso, qualquer maldade não está necessariamente vinculada ao outro, a ação de outrem, ao desejo de outra pessoa. Até pode ser, mas não necessariamente. Eu não estou livre da prática de maldades, deliberadas ou escondidas, claras ou escamoteadas em nossas próprias práticas de proteção inconsciente. Seres humanos não têm nada de transparência. A transparência é pura ilusão, ou mais uma prática de escamoteamento. Afinal, o caminho se faz caminhando...

Caminho se conhece andando / Então vez em quando é bom se perder / Perdido fica perguntando / Vai só procurando / E acha sem saber

Bonito pensar nessa deriva. Deriva que também é uma palavra muito bonita. Do latim, significa ‘mudar o lugar da corrente de um rio’, significa portanto mudar, alterar. Que bom. Gosto que as coisas mudem. Na verdade, eu ficaria em pânico se soubesse que as coisas não mudariam. Claro, tem coisa que preferimos conservar mas tem coisas que preferimos mudar. Mas mudar como? Mudar para onde? Mudar por que? Não sei. E talvez tais respostas signifiquem o final da deriva. Neste caso, prefiro as perguntas, elas disparam movimentos, as perguntas, boas perguntas nos colocam na deriva, na busca, na procura, na caminhada. E nesse movimento, pode ser até que você encontre algo, que ache mesmo sem se dar conta que achou. Mas há um perigo...

Perigo é se encontrar perdido / Deixar sem ter sido / Não olhar, não ver 

Se encontrar perdido é um perigo. Se perder é se encontrar. Se perder de si, tem muita música popular que fala desse processo, dessa busca, desse risco, desse perigo de se perder e se achar, de se perder e de se encontrar. De encontrar dentro de si monstros maléficos, eles nos habitam sim da mesma forma que criaturas de rara beleza também nos habitam. E cada um de nós é esse jogo, esse balanço, esse fluxo de contradições, de forças de vida e forças de morte. E está tudo bem. O grande desafio é não deixar de olhar para tudo isso, sem medo e sem julgamentos. Olhar para tudo isso em si mesmo mesmo sabendo que é muito mais fácil perceber contradições e sobretudo hipocrisias nos outros. Contradições e hipocrisias que estão nos outros e estão também, de alguma forma, em cada um e cada uma de nós. 

Não, Silvio, você não defende o rio Paraguai fazendo monocultura. Muito pelo contrário, você defende o rio Paraguai pisoteando a soja e carregando sua bandeira de lutas. Você é um bom educador popular, você faz diferença (e não estou usando um modismo), mais do que bio-diversidades você produz bio-diferenças. 

Bom mesmo é ter sexto sentido / Sair distraído, espalhar bem-querer

Deus me proteja é uma canção do Chico Cesar. E este texto é um encontro com ele e Silvio Munari.


Ivan Rubens

Um pouquinho por dia


Nasce um bebê. É linda essa cena. O choro da criança aparece como um grito: CHEGUEI!!! Mas, cheguei onde? que mundo é esse?


Coloque-se no lugar do bebê. Você fica cerca de 40 semanas dentro de uma barriga, protegido ou protegida, recebendo tudo que precisa para sobreviver. Até que um dia, você, bebê, sai da barriga e vai para o mundo. Mas que mundo é esse?


Um bebê não fala. Mas, se falasse, o que diria?

O que você, bebê, diria na chegada a este nosso mundo?


Então você deixa aquele mundo de água, passa por um estreito apertadíssimo e é lançado/a para fora. Mãos te tocam, te enrolam em panos, dedo na tua boca, no teu nariz e teus olhos… E tem um choque térmico: se num hospital, certamente uma sala com ar condicionado em baixa temperatura, se numa aldeia na floresta provavelmente calor, muito calor. E seus braços se movem, pernas, mãos se movem, e coisas que você não conhece tocam no seu corpo, toalhas, paninhos, mãos, algodão. E um monte de ruído toca seus ouvidos, cheiros e tal, um mamilo encontra tua boca… o que te resta é sentir, sentir e sentir.


Ou seja, sua primeira relação com este mundo extra_uterino acontece nos cinco sentidos: audição, olfato, tato e, até, visão e paladar. Ouvidos, nariz, pele, e até os olhos e a língua são intensamente estimulados, mas você não tem palavras para dizer o que te acontece, ainda não tem linguagem, consciência, razão, isso virá com o tempo. Pelo menos não esta linguagem e esta razão que mobilizamos ao ler (e escrever) este texto. O que está operando em você, bebê, talvez uma experimentação intensiva. Você está nascendo para uma (muitas) vida(s) neste mundo. A primeira relação com este mundo fora do útero é sensível e, acredito, a sensibilidade pode ser cultivada durante a vida.


Tem uma palavra para dizer da “apreensão pelos sentidos”. Estética deriva da palavra grega ‘aisthesis’, é uma forma de conhecer, de apreender o mundo através dos cinco sentidos. Uma música, exemplo de obra de arte, é uma criação humana que toca nossos ouvidos. Uma tela, exemplo de obra de arte, é uma criação humana que toca nossos olhos. Uma poesia, literatura, dança, ou o cheiro de uma comida, um prato bonito, o barulho da cerveja caindo no copo, o cheiro do vinho, a cor do suco da fruta colhida do pé, tudo isso vai criando um desejo. Estamos falando de um cultivo da sensibilidade que nos torna mais humanos, um pouquinho por dia.


O contrário também pode acontecer, podemos cultivar sementinhas de medo e ódio, um pouquinho por dia. Bem, eu acredito nas belezas como produtoras de sensibilidades e de uma humanidade mais interessante. E também acredito na natureza como produtora de uma humanidade mais interessante… quem nunca se sentiu pequenino diante da exuberância e da força da natureza? Diante da imensidão do mar, diante de um por de sol, diante da chuva intensa, diante da força de um rio, diante da lua cheia, diante de um cânion ou de uma cachoeira? Tudo isso pode nos tornar seres vivos mais interessantes, um pouquinho por dia.


Ivan Rubens

Educador popular


publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 25 de novembro de 2024