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Educação e territórios tradicionais


Amazônia setentrional, julho de 2026. Margem esquerda do imenso rio Amazonas. A equipe de uma escola comunitária parte para atividades pedagógicas com as famílias de estudantes residentes na Reserva Extrativista do Rio Cajari. Trata-se de um uma viagem de quase 5 horas, dependendo da maré, da direção e da velocidade do vento. Embarcam numa voadeira espaçosa e potente. Voadeira é um barco com casco de ferro, assentos e cobertura de lona comum.



Primeiro navegaram lentamente por um igarapé, cerca de 20 minutos. No Rio Amazonas, navegaram contra o fluxo das águas por cerca de 3 horas até o sinuoso Rio Cajari por onde acessam a Reserva Extrativista. A RESEX Cajari, criada em 1990, é uma unidade de conservação da biodiversidade com mais de 532 mil hectares localizada no sul do estado do Amapá cujo objetivo é proteger o modo de vida, a cultura e a subsistência das populações tradicionais, trata-se de uma das maiores áreas de ocorrência natural de castanha-da-amazônia da região. Na prática, não chegamos até os castanhais. Imagine uma árvore imensa cuja copa busca o sol acima das outras árvores que estão ao seu redor. Castanhais são as áreas onde predominam as Castanheiras, a árvore que produz a castanha da amazônia, ou castanha do Brasil, conhecida como castanha do Pará mais para o Sudeste e Sul do país.



Navegamos pelo Rio Cajari desde sua foz até o médio curso, os castanhais estão no alto curso do Cajari. O objetivo da visita às famílias é conversar sobre a vida: educação e saúde. Este é o processo de reconstrução coletiva dos Temas Geradores dos Planos de Estudo (PE’s). A Escola Família adota a Pedagogia da Alternância. Foram duas rodas de conversa muito interessantes em duas comunidades ribeirinhas. Além de contribuir na revitalização dos PE’s, muito tempo foi dedicado a conversar com mães, pais, avós, tios e tias, irmãos e irmãs, ou seja, com a comunidade que educa adolescentes e jovens de mãos dadas com a escola. Educar nos dias de hoje é um desafio imenso. Educar na Amazônia sob constante ameaça é um desafio ainda maior. Neste sentido, uma Reserva Extrativista é território de resistência, de resistência ancestral, de resistência e ao mesmo tempo de preservação deste pedacinho da amazônia. De preservação da vida.



Numa das rodas de conversa conheci dona Catarina. Aos 80 anos de idade, lúcida, a matriarca da comunidade. Filhos, filhas, netas, netos, bisnetas e bisnetos, ela disse: "peguei 62 crianças nas mãos". Ela é parteira. Linda a imagem: uma mulher que pega a vida nas mãos. E estava ali conosco, na roda, conversando sobre educação. Sobre vida e educação, sobre educação para a vida... e de vida a dona Catarina sabe muito. Dona Catarina colocou uma pulguinha atrás da minha orelha, me fez pensar um pensamento novo: as parteiras e as professoras comungam esse lindo exercício de carregar um pouco da vida em suas mãos.


Armamos as redes e dormimos sobre as águas do Cajari. No retorno para a escola, navegando no sentido do fluxo, nossa voadeira navegava rapidamente. Tudo favorável: pouco vento a favor, céu azul, o sol no final da tarde iluminando as árvores na margem direita naquela luz ótima para fotografar. Conversa animada na voadeira, falávamos das comunidades e das maravilhas que ouvimos, fazíamos planos para as próximas rodas de conversas até que uma verdadeira tempestade caiu sobre o imenso Rio Amazonas. Vento, ondas, maresia, chuva, noite: a natureza mostrando a sua força. Chegamos bem, um tanto molhados/as é verdade, molhados/as e convictos/as que educação escolar em territórios tradicionais passa pela aliança, passa pela comunhão entre os saberes escolares e os saberes tradicionais, escola e comunidade de mãos dadas no maravilhoso desafio de educar. Mãos que seguram a vida. 


Publicado no Jornal Cidade de Rio Claro na edição de 7 de julho de 2026