Quando os colonizadores chegaram, milhões de indígenas habitavam essas terras
cobertas por florestas, rios, árvores, frutas, plantas, bichos, peixes e aves
de todas as cores. Gente diferente falando em suas línguas, produzindo e
reproduzindo suas culturas. Gente, muita gente. Segundo a FUNAI, mil povos
indígenas diferentes, nações indígenas, milhões de pessoas. Exuberância de vida
e beleza.
“Jês, Kariris, Karajás, Tukanos, Caraíbas, Makus, Nambikwaras, Tupis, Bororós,
Guaranis, Kaiowa, Ñandeva, YemiKruia, Yanomá, Waurá, Kamayurá, Iawalapiti,
Suyá, Txikão, Txu-Karramãe, Xokren, Xikrin, Krahô, Ramkokamenkrá, Suyá /
Curumim chama cunhatã que eu vou contar / Curumim, cunhatã / Cunhatã, curumim”
Na canção ‘Curumim Chama Cunhatã Que Eu Vou Contar’(1981), Jorge Ben Jor fala
do modo como os povos indígenas foram colocados em um único espaço, sem
distinção, reduzidos a uma figura meio caricata. E a construção da unidade
nacional: um país, um povo, um idioma. A passagem do diverso, do multi, do
pluri para o único, o uno. Um ser humano universal para um Estado nação.
“Antes que os homens aqui pisassem / Nas ricas e férteis terraes brazilis / Que
eram povoadas e amadas por milhões de índios / Reais donos felizes / Da terra
do pau-brasil / Pois todo dia, toda hora, era dia de índio / Mas agora eles só
têm um dia / O dia 19 de abril...”
Pouco sabemos de nossas origens, da potência desse encontro de raças que
aconteceu aqui nestas terras: indígenas (que habitavam as Américas), homens e
mulheres vindos da África na condição de escravizados, gente do Brasil original
e da África ancestral. Nosso passado é indígena e, penso, indígenas são as
possibilidades de futuro para a espécie humana neste planeta. Caso contrário, o
fracasso ambiental se anuncia.
“Amantes da pureza e da natureza / Eles são de verdade incapazes / De
maltratarem as fêmeas / Ou de poluir o rio, o céu e o mar / Protegendo o
equilíbrio ecológico / Da terra, fauna e flora / Pois na sua história, o índio
/ É o exemplo mais puro / Mais perfeito, mais belo / Junto da harmonia da
fraternidade / E da alegria / Da alegria de viver / Da alegria de amar”
Se ainda resta floresta na Amazônia, isso resulta do modo de vida de povos
indígenas no convívio com a natureza em contraposição ao modelo de
desenvolvimento que destrói a natureza e devasta as formas de vida. Mais terras
aos indígenas, esse é o caminho para a vida ser mais bela.
“Mas no entanto agora / O seu canto de guerra / É um choro de uma raça inocente
/ Que já foi muito contente / Pois antigamente / Todo dia era dia de índio. Mas
agora ele só tem o dia 19 de abril”.
Neste mês de abril aconteceu o 22º Acampamento Terra Livre,
marco na luta indígena. A capital federal, esteve ocupada pelas lideranças e
povos indígenas. A cidade estava colorida, pintada, mais alegre com as danças e
cantos indígenas, seus cocares, suas penas, seus corpos pintados. Indígenas são
expressão da arte e da beleza. Por uma estética indígena para um mundo melhor e
mais belo.
Ivan Rubens
publicado no Jornal Cidade de Rio Claro em 14 de abril de 2026
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